Baixe aqui o primeiro conto do livro.
Coordenação editorial: Laura Del Rey | Prefácio: Amara Moira | Edição: Laura Del Rey e Victor Pedrosa Paixão | Ilustração: Céu Isatto | Projeto gráfico e diagramação: Laura Del Rey | Revisão: Aline Caixeta Rodrigues | Catalogação: Ruth Simão Paulino | Agradecimentos: Augusta Gui, Caio Curtolo, Char Velloso, Diana Salu, Ju Guedes, Stênio Carvalho, Secretaria de Cultura de São Paulo, Angela Mendes, Fernanda Heitzman, Fernando Zanardo, Marilia Jahnel e Renata Del Vecchio | Design para redes sociais: Fernando Zanardo
nº de páginas: 144 | ISBN: 978-65-88104-08-8
Trecho da obra
“Boneca e Monique descem as ruas com confiança e cautela. Andando por essa região, sabem que é preciso levar consigo um pouco de cada. Atentas, não baixam a guarda na caça ao yawá-ocó. Para Boneca, que há anos sai para trabalhar todas as noites por aquelas esquinas, a região por onde passam é familiar e hostil. As ruas da boca do lixo se embrenham, apertadas como o coração de uma mãe que não dá conta de todas as filhas e filhos, deixados a contragosto à sorte e ao frio. Naqueles quarteirões entre a Praça da Luz e a Praça da República, ferve a vida que escapa feito mato pelas rachaduras: travestis, prostitutas, mendigos, malandros, cineastas e violeiros se divertem e trabalham, comem e passam fome, dançam e choram, vivem e morrem. A boca do lixo, pensa Boneca, o edi da capital – por onde escoam ônibus, filmes e putas, do coração vibrante da Estação da Luz para o país inteiro. As duas vão caminhando e se entretendo com os cartazes dos cinemas de rua, especializados em filmes cujos títulos escrachados e apelativos fisgam aqueles em busca de diversão ou de uma punheta.
Pegam uma esquina errada, e o engano se faz evidente nos segundos que levam para enxergar uma viatura e ouvir a voz de um alibã. Parece disposto a fazer da vida de alguém um inferno.”
Sobre a autora
ZÊNITE ASTRA nasceu em 1995 em Ribeirão Preto, no interior paulista, de onde saiu em 2013 para morar em Campinas, cidade em que reside até hoje. É licenciada em Letras pela Unicamp e atua como educadora. Em sua produção artística, explora prosa e poesia, e faz da experimentação com diferentes linguagens uma tentativa de dar conta de realidades plurais. Se interessa por investigar a memória, a resistência e a formação de comunidades nas experiências trans, não binárias e travestis. Em 2019 produziu, de maneira independente, três zines, “os zênis”. No início de 2020, participou como expositora na NHAÍ – Feira de Literatura e Arte Impressa organizada pela Casa 1. No mesmo ano, publicou o conto “o meu nome quer dizer verdade” na revista Uso nº 3, em formato digital.