[ Conversamos com Verónica Gerber Bicecci sobre o conto visual “Os falantes”, publicado na Puñado 4, e convidamos a brasileira Chayenne Orru Mubarack para fazer mais algumas perguntas à autora. A entrevista foi realizada em 2018 ].

PUÑADO: Como é para você o trânsito de uma obra entre o espaço expositivo de um museu, por exemplo, e o espaço de uma publicação impressa? Quais pensamentos se aproximam/afastam entre eles no momento das suas decisões? Pergunto isso porque o projeto El vacío amplificado [disponível para visualização no site da artista] me chama bastante a atenção, e fiquei curiosa em relação aos seus processos físicos de experimentação, rascunhos, caminhos…

Gosto muito de pensar nesses trânsitos e gostaria muito de, pouco a pouco, complexificá-los mais. Muitas vezes resolvi a questão de maneira complementar: uma parte acontece no espaço expositivo e a outra na publicação impressa – de tal forma que ambas estejam sempre incompletas. Ao mesmo tempo, funcionam independentemente, e têm significado inclusive se você olhar para apenas uma delas. No projeto de que você me pergunta, em especial, tentei inverter a ordem dos processos. Em vez de fazer um mural na parede, fiz esboços: usei a parede como caderno de anotações. Então, tirei fotos desses rascunhos para fazer a publicação. No fim, não existe um original, porque as paredes, depois de o projeto ter sido apresentado, foram apagadas.

PUÑADO: Tem alguma palavra que te assombre?

Sim, uma onomatopeia da qual lembrei há pouco tempo, relendo um conto de fantasmas que eu gostava muito quando criança: “repámpanos” [a expressão demonstra um misto de surpresa e irritação].

CHAYENNE: Como você definiria a Verónica escritora e a Verónica artista? Há algum limite entre elas?

Há pouco tempo respondi essa pergunta de forma muito concreta, demonstrando algo que, agora, eu poderia pensar que é um ritual: tenho duas mesas, uma para desenhar e outra para o computador onde escrevo. Os dispositivos conciliadores no meu estúdio são meu caderno e um scanner; eles conseguem juntar esses dois mundos, ou melhor, comprovam que esses mundos não são tão distantes.

CHAYENNE: Dada a hibridez que permeia a sua obra – tanto em relação ao gênero textual quanto às linguagens utilizadas –, quais são suas influências enquanto artista que escreve?

Converso com muitos outros artistas visuais que escrevem, como Ulises Carrión ou Sophie Calle, e também com escritores que desenham, como Juan Luis Martínez, Lewis Carroll e Mirtha Dermisache. Ultimamente, no entanto, tento estabelecer diálogos com os mais jovens, na sala de aula. Uma linguagem nova está sendo gestada nos memes, bots e gifs. Essa afirmação parece estúpida para muita gente, porque esses tipos de estratégia de imagem-texto costumam ser classificados como superficiais. Eu acredito que eles são a prova de que vivemos em uma era caligramática. Os artistas visuais e escritores mais jovens são os que melhor entendem essas configurações, quem as está complexificando. Aos demais, cabe aprender com eles em vez de atacá-los.

 


CHAYENNE ORRU MUBARACK é mestranda em literatura hispano-americana e professora de espanhol. Também colabora com o selo editorial Malha Fina Cartonera e faz parte do “Coletivo de Literatura LGBT Reinaldo Arenas”. // As biografias de Verónica Gerber Bicecci e das demais autoras da Puñado podem ser lidas aqui.


__postagens recomendadas
0