{ O AUTOR }
Bruno Carmelo é mestre em teoria de cinema pela Universidade Paris III – Sorbonne Nouvelle. Atualmente, trabalha como editor e crítico no site AdoroCinema.


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Um lago azul, de proporções modestas. A vegetação ao redor limita-se a pequenos arbustos, um mato retorcido e pouco atraente. As únicas árvores encontram-se ao fundo, distantes, quase invisíveis desta distância. O sol está encoberto por nuvens, deixando o dia esbranquiçado, melancólico. Morno. Talvez nada chamasse a atenção nesta paisagem se não fosse a presença de um grande urso à direita, admirando as águas. Apesar do grande tamanho, ele não sugere ameaça. Olha o lago à procura de peixes, possivelmente para beber água. Quem sabe observe o lago porque, num lugar desses, não existe mais nada para observar. O lago seria o clímax, o atrativo evidente deste cenário, não fosse o urso lhe roubando o protagonismo. É comum um lago se formar numa planície tropical. Um urso, não.

Por isto, este pequeno incômodo aos sentidos. De onde viria o bicho, sozinho, e o que faria neste local? Visivelmente, não há presas ao redor, e se busca água para saciar a sede, por que se limita à área próxima do lago ao invés de entrar nas águas? Analisando atentamente, nada em seu movimento indica uma aproximação. Além disso, como dito antes, o animal simplesmente não pertence à paisagem. À tundra, à taiga, sim. Não a esta espécie de paraíso desértico em dia nublado. Ao que se poderia retrucar que a vista não é obrigada a acatar regras da geografia padrão. Pode ter seu funcionamento próprio, constituindo uma bem-vinda exceção – daquelas capazes de levar biólogos a estudarem horas, meses, anos, redigirem teses e especularem sobre o animal solitário que se perdeu, adaptou-se a outro ambiente, devorou insetos e viveu perto de um lago numa paisagem qualquer.

Mas por que um urso, um animal feroz e selvagem, signo de força e virilidade, dominaria a paisagem e conquistaria os nossos olhos? Por que uma enésima demonstração de beleza natural através da violência, do macho dominador? Faltava apenas um leão, com sua juba ao vento – embora não vente neste cenário – para o clichê estar perfeito. É cansativo o estereótipo da história contada pelo ponto de vista dos vencedores, dos heróis, daqueles que reinam sós diante de um terreno silencioso a reverenciá-lo. Os microorganismos e as plantas estáticos, calados a observar a magnitude do animal, seus músculos flexionados, sua presença imponente. Basta, não? Talvez se aproximarmos, se virmos de perto, perceberemos pequenos ferimentos na pele, confirmando o sinal de uma luta voraz da qual saiu vitorioso.

Talvez o preconceito seja nosso, e seja preciso pedir desculpas. Nada indica, desse ponto de vista pelo menos, que se trate de um macho. Alguns biólogos experientes diriam que esta pose se encaixaria perfeitamente nos modos de uma fêmea, inclusive pelos hábitos solitários. Digamos que ela perdeu os filhotes, que morreram num ataque voraz de outro bicho, ou apenas que não tenha tido filhote algum. Uma fêmea estéril, abandonada pelo macho. Quem sabe uma fêmea progressista, esclarecida, cansada de ver suas semelhantes reproduzindo o padrão de gerar novos bichos, atribuindo a si própria, por esclarecimento súbito, a tarefa de vagar contra o destino natural que lhe foi dado. Nada de ter filhotes. Ela não desejaria transmitir a criatura alguma o legado de sua miséria. Percorreria o mundo consciente de sua rebeldia, de seu caráter revolucionário, e também de sua finitude. Uma ursa niilista.

O próprio título desperta controvérsias. Já dissemos que o urso não está no lago, nem dentro do lago, e sim perto dele. Seria mais apropriado “o urso à beira do lago” ou “o urso próximo do lago”, a não ser que o título, sugerindo temporalidade e movimento, indique que os próximos passos do animal – macho ou fêmea, a determinar – seja adentrar as águas, talvez para matar a sede ou devorar os bichos. Ou ambos. O nome pode ser uma tradução ruim do inglês, “by the lake”, recaindo nas mãos de um intérprete pouco talentoso. Existe tradução para o “by”? Talvez não. Que seja no lago mesmo, bota no lago. Dá para entender. Que tal “o urso do lago”, como se fosse um personagem acostumado ao cenário? “Sabe o urso do lago, aquele se sempre passa por aquelas terras”? “Ah, sim, o urso do lago”.

Controverso mesmo é sugerir que nem se trate de um urso – caso em que o título estaria duplamente errado. Seria um animal semelhante, já que aquele torso contorcido assim não existe em urso de espécie nenhuma. Seria um parente, um tipo quase extinto. Surgem então mais teses, mais especulações. O não-urso torna-se fenômeno na Internet, inspira memes sugerindo seus superpoderes ou a tristeza de não ser mais urso, assim como Plutão deixou de ser planeta depois de tanto tempo acostumado ao grupo dos planetas. Sofreria bullying. Adolescentes usariam o não-urso para falar de seu sentimento de inadequação. Foto do bicho + “como estou me sentindo hoje” + #SegundaFeira. Feministas criticariam a exaltação da dor do pobre macho, viril e vencedor, naquela paisagem linda, sofrendo crises identitárias. Difícil ser macho dominador, não? Fosse humano, seria branco, conservador, direitista. Votaria em político clamando pela ditadura militar. Mas sofre, pobre.

Pior mesmo são os portais na Internet, os jornais e as revistas dedicando páginas inteiras a um bicho excepcional enquanto existe coisa muito mais importante acontecendo no planeta, e no próprio país. Os defensores de tal linha editorial dirão que é preciso fugir do amargor da política, da insistência fúnebre de denúncias de corrupção, de descrença em tudo e todos, e admirar a natureza. Se não for um urso, ou ursa, ou não-urso, será um gato com bigodes de Hitler, um husky siberiano com a capacidade de aparecer sorrindo nas fotos. Precisamos dos animais coloridos para fugir à realidade cinzenta. Dirão igualmente que o mamífero nas proximidades do lago – sejamos genéricos, por enquanto – nos distrai dos elementos realmente importantes, desvia a nossa atenção das manipulações capitalistas, das manobras dos poderosos para se manterem no poder e dos menos poderosos para usurpar o poder alheio. São todos corruptos, mas os meus são um pouco menos que ou seus. Ou talvez minha corrupção seja diferente, não tão grave. Justificável. De qualquer modo, uma paisagem simplória nos faz desperdiçar o tempo essencial da dialética.

Assim, depois de uma semana ou duas, o urso some. Não que ele tenha desaparecido, porque nenhuma lei da física explica este fenômeno. A matéria se decompõe, se transforma, mas não desaparece. Ele apenas parou de ser visto. Algo que não é visto sublima-se, esquece-se, o que equivale a nunca ter realmente existido. O desafio dos nossos tempos espetaculares é a ingrata permanência das coisas. Ninguém olha mais o urso, nem o lago, nem a possível árvore ao fundo. Agora fala-se de uma girafa no inverno. Com as patas enfiadas bem fundo na neve. Olhando diretamente para a câmera. Talvez sorrindo. #PartiuSextaFeira. #ComoMeSintoQuando. É absurdo dedicar o tempo às girafas, como foi aos ursos, aos lagos, aos gatos, a tudo que não seja nosso circo antinatural do poder e da mídia corrompidos pelo patriarcalismo e pelo capitalismo e pelas redes sociais e pelas frases da Clarice Lispector. Mas a política selvagem instalou-se na paisagem. Não nos observa nunca, embora a contemplemos com frequência. Acontece através de um vidro blindado, alheia à nossa presença. Puro voyeurismo. Acontece apesar de nós.

A girafa, estranha, atípica, com suas patas na neve, parece muito simpática. E sorri.

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