{ Patchwork de frases coletadas nas mesas de debate, ruas, palestras e entrevistas que fiz como parte da equipe de comunicação do Festival* }

 

|| sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Estão pipocando encontros fotográficos por todo o Brasil e acho que, hoje, é nestes eventos que a fotografia está acontecendo. Com essa saturação de imagens, acho interessante pensar o que é fotografar. >> Maureen Bisilliat

Qual é o nosso papel [como fotógrafos, editores, cineastas, produtores de imagem]? Ter esperança de que contando bem as histórias nos faremos ouvir. >> Juan Valbuena

 

Existe uma forma muito singular de se morrer no Rio de Janeiro. No ano de 2002, que foi o ano em que comecei o projeto, 1 pessoa a cada 6 dias morria vítima de bala perdida. (…) Eu, como fotógrafa, me sinto uma contadora de histórias. Decidi voltar a esses lugares e fotografar as ruas vazias. Porque, lembrando do trabalho do Felipe Russo, por exemplo, que também fotografou São Paulo vazia… o que me move aqui é acreditar que essas ruas vazias são inaceitáveis. (…) Fotografo os lugares e as pessoas todas têm seus nomes nas legendas, porque senão elas viram estatística. >> Anna Kahn, sobre Bala Perdida 

 

É um grito de desespero em vários graus – e depois um pouco de esperança. [ Maureen sobre o documentário Equivalências, que está realizando em parceria com Fábio Knoll ]

 

A filmagem era pra durar 15 dias, mas acabou durando umas 4 semanas. O barco encrencou várias vezes. O alemão queria tudo mais organizado; e o Evandro Carreira [na época senador], que era da Amazônia, dormia muito… depois acordava num rompante e saía andando. A gente ia com a câmera atrás. Não tinha muito como fazer planejamento. Aí uma hora o alemão não aguentou. Eu falei: “Bom, a câmera fica no barco. Quem fica no barco fica no filme”. Ganhou o senador (risos). >> Jorge Bodanzky, sobre o documentário Terceiro Milênio (1981)

Brasília é um verdadeiro cemitério de almas, e eu mato a minha nostalgia da Amazônia fixando este quadro [uma pintura da floresta na parede]. >> senador Evando Carreira, no filme de Bodanzky e Wolf Gauer

Todos os fatos aqui são verdadeiros. Qualquer semelhança com a ficção é mera coincidência. >> legenda final de Terceiro Milênio

 

Meu projeto não é “de gostar”, ninguém gosta [de ver]. Mas uso o estético como ferramenta, como mensagem. Se coloco algo em alumínio, por exemplo, ao montá-lo para um espaço, é porque acredito que o material vai acrescentar algo ao discurso do trabalho. >> Laia Abril sobre A History of Misogyny, em que acompanhou e retratou, por até 3 semanas, mulheres que haviam feito aborto.

Pra começar, por que fazê-las passar por esta situação tão pesada? Então, [pra evitar o desgaste delas] eu queria realizar o trabalho o mais rápido possível. (…) E é tão agressivo, tão duro o que eu vejo e vivencio com elas! Trabalhando as imagens, meu corpo passa por todas aquelas experiências – que então eu preciso digerir de uma maneira que as pessoas possam olhar sem virar o rosto; sem reagir como todos reagimos à fotografia do menino sírio na praia. Por este motivo, abordei o projeto de maneira menos “calorosa”; fui mais formal, mais conceitual.

 

Maureen: Podíamos ter rodado Feira de Santana inteira… qual a chance de eu encontrar esse homem? [retornando três décadas depois a um matadouro que fotografou em 1958 e vendo ali um funcionário que trabalhava no local em sua 1ª visita]

[Homem da equipe]: … e ele veio parar na nossa mão. Por que que ele veio parar na nossa mão?

M: Por quê?

H: Porque uma senhora arrombou o portão desse lugar às 3 da manhã (risos).

M: Você vai ter uma história pra contar naquele clube de fotografia.

 

|| sábado, 15 de outubro de 2016

O livro tem acesso a lugares que você não vai, que você não foi… O Jornal de Borda, por exemplo, chega de um jeito louco nas pessoas, pessoas que você nem conhece. Essa questão talvez seja a coisa mais forte das publicações: a potência da repercussão, que possibilita encontros, né? Quanto mais elas circularem, mais vão permitir encontros. __ Fernanda Grigolin 

A Fernanda [Grigolin] me convidava pra 6 projetos por semestre (risos). Eu moro em Recife; sou recifense. Minha vida é uma vida de contemplação. Não dou conta de fazer um projeto fotográfico por mês (risos). Aí combinei com ela de bolar algo pra série Pretexto [impressa em tiragem de 100 exemplares]. Esse semestre, além da fotografia, estou trabalhando com pôsteres; fotografo restos de cartazes de campanha política, tentando entender a dinâmica deles na cidade. Aí propus pra Fernanda um cartaz bem simples, sobre um poema que eu estava fazendo, que tem a ver com o caso daqueles 5 meninos do Rio de Janeiro que foram mortos com 111 tiros. Minha ideia era imprimir cinza sobre cinza, ou branco sobre branco, pra falar sobre a invisibilidade dessa questão. Mas aí soube que a impressão da Pretexto seria em rizografia, então a solução foi colocar a frase do poema com uma retícula redonda, que parece uma marca de tiro no papel. (…) O corpo do trabalho se dá pela trajetória que você criou.  

Se você entender que o seu processo é muito mais importante do que onde você vai chegar, você aprende a se respeitar. Eu prefiro dizer não do que acelerar um processo que não vai ser bom pro meu próprio processo. __ Ana Lira

Teve um trabalho [ Essa Luz Sobre o Jardim ] que eu estava fazendo sobre a minha avó que tinha Alzheimer e que eu fotografei enquanto ela estava viva. Muitas vezes me perguntava quando esse trabalho acabaria. Quando vai acabar, quando vai acabar? Mas assim que ela faleceu, senti que precisava terminar o trabalho, porque já estava há um ano e meio pensando muito sobre ele, também. Agora estou fazendo um trabalho sobre o amor, e eu sempre acho que está terminado, mas a minha namorada acha que nunca está terminado. Até brincam que é porque ela não quer que o amor acabe (risos). Ela tem uma questão com o conceito do projeto, que está ligada a um mito, … ela acha que eu teria que ir até o lugar desse mito e fotografar… mas não sei. Tem um momento em que você olha, acho que é um clique, e você pensa que acabou. Esse projeto do amor tem três anos já, mas não sei, não sei… __ Fábio Messias

Cada livro é um universo sensorial que você abre. Se a luz está amarela você vai ver de um jeito, se está numa luz branca… se é de manhã, ou se é de noite… Tem uma história do João Castilho, por exemplo, que fotografou as primeiras páginas do livro Metamorfose, do Kafka, e a cada hora do dia que ele ia fotografar o livro estava diferente. Então acho que a gente ter uma percepção de que o livro está pra além do que projetamos faz com que a gente retorne para ele de outra maneira. __ Ana Lira

 

Arte implica claramente algo muito difícil e muito complexo; implica ampliar nossa experiência da imagem e do olhar. (…) A maneira como o termo memória é usado hoje faz parecer que tudo é importante, que tudo se guarda, mas obviamente não é assim. Felizmente nos lembramos de algumas coisas e esquecemos de milhares de outras. Oscar [Muñoz] trabalha sobre a memória, mas uma memória mais complexa __ Horácio Fernandez // mais detalhes sobre o trabalho de Oscar neste artigo aqui.

Como lido com projetos muito longos (nenhum toma menos de dois anos), tenho tempo pra experimentar, avançar e retroceder. Mas o que venho sentindo ultimamente é que me movo na direção das coisas mais primárias. Tenho refletido sobre aquele tipo de ferramenta que avança numa velocidade mais ligada ao mercado do que a uma necessidade real de gerar soluções visuais. Busco me afastar disso e trabalhar com ferramentas que podiam ser usadas há 150 anos e que podem seguir sendo usadas, pelos filhos dos meus filhos dos meus filhos. __ Roberto Huracaya, em entrevista

 

Tenho um interesse especial na fixação. No momento exato em que uma imagem ou um texto se solidifica e se transforma em um documento que vai permanecer. O que se fixa e o que não se fixa. Reflito muito sobre isso. 

[respondendo sobre o que acha que é um documento] Pode ser que eu esteja equivocado, mas vou usar um exemplo. Um cavalo vai por um caminho e, de repente, chove. Volta o sol e ele se seca. Mas há um registro de que esse cavalo passou por ali. Por outro lado, pode acontecer de o cavalo passar pela chuva, secar e que aí volte a chover. Então já não haveria o registro de que esse cavalo passou por ali. __ Oscar Muñoz

 

Num futuro que não sabemos quando vai chegar, todas as imagens serão perdoadas. As boas, as ruins, as péssimas… Não sabemos, daqui um tempo, quais serão as imagens importantes, as que ficaram. Podem ser as das redes sociais, do Youtube… _ Ivana Bentes

 

Será que não haveria uma emulsão que pudesse conservar um pouco o movimento das coisas? Será que as fotografias não poderiam reter um pouquinho de vida e nos fazer gestos alguns anos depois? _ Maureen Bisilliat

 

Aí me ocorreu a ideia [um enorme papel fotossensível exposto à luz da lua cheia]. Quis buscar uma imagem que fosse uma experiência e foi interessante assumir que eu precisava perder o controle. Por exemplo, o trabalho era revelado com a água dos rios, cheia de minerais — então o papel e os químicos misturados a esta água “suja” acabou tingindo parte da peça. Ou, quando estávamos com o papel estendido na mata e, de repente, caía uma tempestade imensa cujos raios ajudavam a expor o material; um pedaço de galho que se soltava e a luz da lua manchava essa queda… A imagem foi ficando com todas essas marcas, são camadas de sentido e significado que se incorporaram.

A perda de controle me fez um mediador do processo. Eu como fotógrafo vou desaparecendo e aparece mais o que eu queria representar. __ Roberto Huarcaya sobre Amazogramas 

 

* O Festival aconteceu em Santos, de 12 a 16 de outubro de 2016. A equipe de comunicação foi coordenada pelo Felipe Abreu, da OLD. { Eu anotei as frases acima durante entrevistas, discussões, workshops, mesas de debate e palestras – que, por essa informalidade, podem ter detalhes diferentes das falas originais }

** Fotografia do thumbanil:  Julio Bittencourt // fotografias do post: Laura (rapidinhas no celular) | Valongo Festival 2016)

 

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  • …grande incentivadora da fotografia…selecionou meu trabalho e 1972 para a exposição “Fotógrafo Desconhecido” no MAC USP…

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