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Não é o homem quem confere

personalidade à natureza: 

é a natureza quem dá as pautas

à comunidade.

Não é o homem que humaniza

a natureza:

é a natureza que humaniza

o ser humano. __ Alfredo Mires

Conheci o peruano Francisco Vigo e seu projeto Qayaqpuma em 2014, no Paraty em Foco. Agora, o livro está prestes a ser lançado (em fevereiro de 2017), autopublicado, em tiragem que será de 300 a 500 exemplares. A semana passada, passamos mais de uma hora no Skype, conversando sobre o trabalho dele e as montanhas, as montanhas…


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(A 1ª e muito importante coisa a saber): Como se pronuncia Qayaqpuma? 

(risos) O Q no início da palavra soa como um C. E no meio soa mais como um J. [ele diz outra vez o nome, que seria mais ou menos um ‘cajarrpuma’]

 

O trabalho já tem alguns anos. Como foi o trajeto até aqui?

Comecei o projeto uma vez que fui caminhar na montanha, que é muito grande e conecta dois distritos pequenos em Cajamarca – minha cidade. Ela estava abandonada, cheia de garrafas, suja. E é um lugar muito importante, porque tem pinturas rupestres, algumas estruturas que não se sabe quem fez, muitas tumbas – várias delas já saqueadas. Deu tristeza ver o lugar daquela forma. Então, minha primeira intenção foi tentar, através da fotografia, gerar um pouco de interesse político e social. Fui até lá algumas vezes. Essa primeira parte do trabalho era mais documental, fotos que nunca chegavam a me agradar, pareciam “de registro”. A montanha é grande, algumas partes são inacessíveis. Passei, então, a acampar lá e fazer fotos à noite.

Em algum momento, começou a me parecer que as pedras – e todo esse lugar onde eu acampava – criavam novos aspectos de acordo com a lua, as estrelas, o fogo da fogueira; parecia que se moviam, por um momento. As pedras eram diferentes a cada vez que eu ia e isso chamou minha atenção.

Sentia que aquela natureza estava viva e comecei a buscar isso nas fotografias que fazia, mas o aspecto de registro continuava. Mostrei o trabalho a amigos, conhecidos… e fui notando que havia muito potencial nos erros, em fotos que disparei sem querer ou em que o tripé caiu. Percebi que neste involuntário havia coisas interessantes e passei a experimentar mais. Depois de um tempo, deixei de lado quase todo esse trabalho (risos). Fiz um workshop com o Julian Barón e percebi que havia possibilidades ainda mais pessoais para desenvolver.

 

Quanto tempo durou esta fase anterior ao workshop?

Dois anos (risos). Mas há de ser parte do aprendizado. Parei um tempo e depois de 6 meses senti que podia voltar ao trabalho. Fui atrás de um mesmo compromisso com o mesmo espaço, mas agora numa nova série. Claro que o que eu tinha feito antes me ajudou, mas essa nova ideia podia me libertar da anterior.

Qayaqpuma é uma exploração visual; uma exploração visual do processo de eu estudar a cultura andina e como esses povos entendiam o universo. É a minha busca por entender, sobretudo. Porque sempre escutei muitas histórias e teorias, mas nunca tinha conseguido me identificar com nenhuma, acreditar completamente em nenhuma. Então, foi basicamente um recurso de procurar o meu ponto de vista.

Recorrer menos a outros e entender mais o que eu sinto que uma pedra pode me dizer – e como a câmera pode também dar novos sentidos a isso.

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A que tipo de histórias e teorias você se refere? Lembrei agora de alguns rituais de antigos povos andinos da Argentina. Aquelas cerimônias de sacrifício que enterravam crianças (e ouro, plantas, oferendas) no topo das montanhas, por acreditar que aqueles eram espaços sagrados. Existem muitos povos que atribuem importância às montanhas altas, aos vulcões… centenas de teorias assim, não? Me interesso muito por isso.

Sim. Eu me referia principalmente à desconexão que sinto com as teorias dos arqueólogos. Eles têm sempre uma coisa de dizer “isso é”; “fulano de tal foi enterrado com tal coisa porque era um soldado”. Encontram uma ponta de lança e logo pensam que era para caçar ou sacrificar ou… Mas não pensam que seria para operar, por exemplo, sendo que existem muitos indícios de que sim, havia uma medicina ali. Esse tipo de teoria me incomoda, como me incomoda a ilusão de que no mundo antigo tudo era perfeito, todos viviam em harmonia. Não necessariamente. No final das contas, nessa busca por entender, eu acabei com mais perguntas, na verdade. O que tento com meu trabalho são sugestões do que poderia haver. Pesquisei mais as histórias das pessoas [que vivem ao redor da montanha] do que coisas científicas.

Os povos dali hoje têm crenças que se misturam muito com as cristãs, são crenças mais ligadas a um tipo de demônio. Há sempre muito misticismo nesses lugares. Os avós e bisavós dessas pessoas devem ter contado histórias para elas. Eu gostei mais de me aproximar destas teorias. É melhor nos mantermos conscientes da nossa ignorância.

E, como você disse, uma outra coisa interessante é que as pessoas que desejam coisas vão pedi-las à montanha. Deixam folhas de coca, pão… oferendas para pedir permissão e agradecer. Esses princípios de reciprocidade, de dar algo antes de pedir (ou devolver logo), me parece muito bonito. São algumas das coisas que entendi através do trabalho.

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Você colocou na página do projeto uma frase da qual gostei muito. Algo sobre as montanhas abrirem os olhos. Qual a ideia por trás disso, exatamente?

Essa frase é uma história que um antropólogo me contou. Ele caminhou pela montanha por quase 30 anos… é uma referência importante para mim. Ele me contou a seguinte história:

Assim que o mundo se formou, todas as montanhas saíram do fundo do mar para olhar o lugar em que estavam. Cada uma queria ficar onde já estava, mas elas perceberam que precisariam separar-se e povoar o planeta. Então, as que acordaram antes escolheram seu lugar e as que não acordaram precisaram procurar outros.

E contam que Qayaqpuma foi uma dessas montanhas que precisou se deslocar; ela chegou ao lugar onde está com sua dupla, seu casal. [Casal?] É que dizem que Qayaqpuma tem um espírito masculino, o Illaorco. É uma outra montanha, que só teria se colocado ali como um complemento a Qayaqpuma. Gosto muito desta ideia, porque fala também da complementaridade entre as montanhas.

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O que é o projeto Yanantin [foto acima], que está no seu site? Tem relação com Qayaqpuma?

Esta série foi daquele princípio do projeto que eu te contei, mais documental. Imagens feitas em Qayaqpuma, mas que não vão entrar no livro. Yanantin é um conceito que se traduz literalmente como sombra. Mas, na verdade, tem mais a ver com o princípio de complementariedade: que o de cima precisa do de baixo, o vazio precisa do cheio, a maldade precisa da bondade… Aliás, eu fui percebendo que as pinturas, quase todas, têm uma sombrinha grudada; a mesma pintura, mas mais borrada. Enquanto vasculhava meus arquivos, fui encontrando imagens que tinham relação com isso e quero explorar mais o conceito. Vou usar algumas coisas já feitas e também fazer novas. Estou entendendo isso como um novo projeto – que não vai ser um livro, mas vai ser algo.

 

Você tinha algum medo de ir para a montanha à noite? Te aconteceu algo de estranho?

Olha, eu nunca fui passar uma noite sozinho (risos). A primeira ideia que me vinha era: o que aconteceria se eu me encontrasse com alguém?

Porque eu sei o que estou fazendo aqui, mas essa outra pessoa estaria fazendo o quê às 3 da manhã na montanha? (risos)

Qual a altitude da montanha?

3000 metros no ponto mais alto. Năo é tão alta, mas está em um lugar um pouco complicado [chamado Wayrapongo, que quer dizer “porta de vento”], porque é uma entrada forte de ventanias. Às vezes não é fácil acampar. Eu iniciei o trabalho, também, no momento em que comecei a tomar San Pedro [um tipo de cacto alucinógeno]. San Pedro foi utilizado por muitas culturas e há diversas pinturas rupestres na montanha que parecem aludir a ele.

Como havia muitos cactos por ali, passei a experimentá-los. Acho que isso me ajudou a sentir que as pedras se moviam (risos), que as coisas estavam vivas ali. As plantas colaboraram muito nessa relação forte que criei com a montanha.

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Dá para ver Qayaqpuma estando na cidade?

Sim. Agora que a cidade cresceu, se vê melhor a partir do 3º ou 4º andar dos prédios (risos). Mas ela se destaca no panorama de montanhas. Acho que essa presença que ela tem no centro do vale ajudou [a se destacar]. Pela altitude, pela forma…

Na verdade, ela foi “eleita” diversas vezes, por diversas culturas, ao longo de milhares de anos, como um símbolo. Ela emana uma energia tão forte que eu acho que dá pra sentir mesmo sem ir até lá.

Há tantos minerais, elementos da natureza… com certeza eles têm alguma importância nessas terras todas. Tem povos que dizem que, só de pronunciarmos o nome das montanhas, já estamos evocando seus poderes (de cura, por exemplo).

 

Antes de lançar o livro, você já fez algumas exposições [Lima, Arequipa, Shanghai e Cajamarca] e também alguns vídeos. Como você trabalha o projeto em cada um destes formatos?

As exposições foram completa casualidade. Eu não estava esperando expor, porque ainda não tinha o trabalho terminado – e inclusive hoje tomaria decisões diferentes das que tomei. Tinha pensado expor antes em Cajamarca e só depois nas cidades maiores. Mas eram espaços expositivos muito interessantes os que estavam me convidando, e não quis perder a oportunidade. Sobre os vídeos… num dado momento, me convidaram para fazer uma apresentação com as fotos, projetá-las. E achei que apenas projetar não seria muito divertido, então tentei dar ritmo a elas, brincar. Fiz uma série preliminar, que um amigo [o multiartista local José Alberto Osorio, que Francisco admira muito] musicalizou em uma tarde; outro amigo deu certo movimento às imagens… e assim foi. Aproveitei isso e criei um vídeo, para poder somar as camadas de sentido que o som e o movimento traziam. Mas comecei o projeto, desde sempre, com a ideia de transformá-lo em livro – ainda não um fotolivro, exatamente, mas um livro (a ideia de fotolivro acabei desenvolvendo no Paraty em Foco). Esse formato ainda não está terminado, mas também não pretendo mais fotografar. Agora é editar e encontrar as soluções do papel, do ritmo…

 

Vi, pelo boneco, que o livro tem alguns textos.

A importância destes textos tem muito a ver com o que espero dar para Cajamarca, que é uma cidade com muito pouco contato com a fotografia. [Você mora aí desde sempre?] Desde os 5 anos. Cresci aqui. É uma cidade com poucas propostas novas, então penso o livro como um compromisso, também. Falei com tanta gente, pedi ajuda a tanta gente… que preciso fechar esse ciclo de energia com uma resposta física. A montanha me ensinou tanto de fotografia e de mim mesmo! O prólogo foi escrito pelo antropólogo de que falamos antes (Alfredo Mires) e trata basicamente dessa personificação da natureza. O outro texto tem a ver com o fato de que acabei não colocando muito as pinturas rupestres no livro (ou o fiz de maneira muito sutil). Queria fazer menção à importância delas e por isso chamei um acadêmico cajamarquino (Daniel Saénz More), que fez um texto excelente. O último é um texto que ainda não sei se vou deixar ou tirar, feito por mim. Seria uma homenagem ao Alfredo Mires, que caminha muito pela montanha e é um sujeito emblemático da região. Ainda que seja cristão, ele se relaciona com Qayaqpuyma muito naquele sentido de entender que ela está viva. É isso: os textos trazem um pouco de contextualização.

 

E por que saíram tantas fotos das pinturas rupestres? Como foi, ou está sendo, seu processo de escolha das imagens?

As fotos de pintura me pareciam voltar àquele momento de imagens muito descritivas, sabe? Não combinavam muito. E também porque falavam demais da presença humana – que era um tema que eu preferia ter de forma mais sugerida; quase como uma sombra. As pinturas eram muito palpáveis. [Você queria mais indícios…] Sim.

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E a ordem?

Não sei (risos). A primeira foto para mim era clara, porque me parecia um gesto bonito começar com uma bruma. Pra mim, essa foto fala do início de tudo.

Depois, tentei trabalhar o ritmo. Levar um pouco dessa construção da percepção quando se tomam plantas [alucinógenas]. Eu, por exemplo, tendo muito a olhar para o chão e para as texturas… então tentei lidar com esse tipo de coisa no ritmo. Tentei representar, para mim, como é estar na montanha, caminhar estes caminhos.

E o projeto gráfico, como está?

Ainda não está fechado. O boneco que você viu foi feito por mim, mas agora estou trabalhando com o Gonzalo Golpe no design e um pouco na edição também. Senti que não podia continuar eu mesmo olhando o trabalho, precisava de outras pessoas comigo.


+ sobre Francisco e o projeto no site do artista e na página do Facebook

++ pré-venda aqui 🙂

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