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Para encerrar, o listão de hoje traz dicas da incompleta Raquel Chamis + dos colaboradores e convidados Paulo Leierer, Marcelo Bueno, Juliana Brito e Fabian Gamarra + uma tradução de coisas boas do ano (Matt Strange) feita pra gente pelo Romano Corá.


 

1. RAQUEL CHAMIS

Fiz uma lista pouco apegada às novidades/lançamentos fresquinhos de 2016, mas com algumas das coisas que de fato mexeram nesse meu ano à la Belchior, cheio de ~delírios-experiências com coisas reais:

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  • uma maneira de existir || a de Valter Hugo Mãe, escritor português. Não apenas pelo adorável sotaque lusitano, mas por haver tanta gentileza no seu tom de voz quanto há nos textos dele. Isso ficou claro quando o escritor esteve em Porto Alegre para uma palestra sobre o novo livro, Homens Imprudentemente Poéticos (que só comecei a ler em 2017, então ficou de fora da lista). Com um pote de merengues decorados com trigos nas mãos, presente da Esther Grossi, ele foi conversar com o monte de gente que, por não conseguir senha para a palestra, ganhou apenas o lado de fora do auditório. Foi onde fiquei, com o ouvido colado numa caixa de som. E foi bonito mesmo assim.
  • uma fala || do David Grossman, escritor israelense, na Feira do Livro de Porto Alegre. No Theatro São Pedro, ele palestrou sobre o poder da literatura como criadora de mundos alternativos para vidas em conflito. Seu ponto de observação é Palestina e Israel, lugar que muito o define, mas o argumento soa universal: tanto para quem escreve quanto para quem lê, a imaginação é o terreno da liberdade e da resistência. Ele também falou que a literatura devolve a autoria das narrativas para as pessoas e aumenta a diversidade de vozes, e como isso permite ver o outro, algo difícil em lugares onde impera o medo. Tem entrevista dele na Paris Review, outra descoberta velha de 2016, e livro novo nas livrarias, O inferno dos outros.
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O escritor e pacifista israelense David Grossman.
  • um carnaval || dos bloquinhos que arrebataram meu coração em SP, o número 1 é o Tarado Ni Você, que recomendo ser vivido bem pertinho do carro de som, para descer a rua cantando Caetano. E teve um outro, fora do ~calendário oficial da cidade, que percorreu o centro todo iluminado, como se estivesse mesmo à espera do pequeno cortejo noturno. Se eu lembro do nome do bloco? Não. Mas os foliões saíram da frente do Theatro Municipal, rodopiando pelo Viaduto do Chá. É pra lá que ainda olho quando dá vontade daquele carnaval.  
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Tarado. Fotografia de Giselle Galvão.
  • um projeto || o Cinefest Gato Preto foi meu primeiro festival de cinema em tempo integral (com pequenas escapadas para piscina e bicicleta). Lá descobri os Irmãos Carvalho, dupla de cineastas que assinou, entre outros curtas, o genial Boa Noite, Charles. Também gostei muito da animação – doce e com cores bonitas – de Betânia Furtado, chamada Vento. O mais encantador do Gato Preto, porém, é forma carinhosa como tudo se conduz: um pequeno espaço de encontros, com rodinhas de violão e conversas sobre os filmes no café da manhã. Em Lorena, a mais ou menos três horas de São Paulo.   
  • um livro velho || Em 2016, a fotógrafa Carine Wallauer me apresentou um livro que vai ficar para sempre comigo, pelo que é de bonito e por ter sido lido enquanto viajávamos com certo espírito de aviadoras. Terra dos Homens, do Éxupery com tradução do Rubem Braga, tem uma introdução que volta e meia me sobrevoa. Como quando vi as luzes de Ouro Preto se acenderem, meses depois, ainda em 2016:  

Trago sempre nos olhos a imagem da minha primeira noite de voo na Argentina – uma noite escura onde apenas cintilavam, como estrelas, pequenas luzes perdidas na planície. Cada uma dessas luzes marcava, no oceano da escuridão, o milagre de uma consciência. Sob aquele teto alguém lia, ou meditava, ou fazia confidências. Naquela outra casa alguém sondava o espaço ou se consumia em cálculos sobre a nebulosa de Andrômeda, Mais além seria, talvez, a hora do amor. De longe brilhavam esses fogos no campo, como que pedindo sustento. Até os mais discretos: o do poeta, o do professor, o do carpinteiro. Mas entre essas estrelas vivas, tantas janelas fechadas, tantas estrelas extintas, tantos homens adormecidos.

É preciso a gente tentar se reunir. É preciso a gente fazer um espaço para se comunicar com algumas dessas luzes que brilham, de longe em longe, ao longo da planura.

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Liana Fink
  • quatro contas no Instagram || @bymariandrew é uma ilustradora estadonidense com traço simples e olhar sensível para os relacionamentos amorosos, o cotidiano, a política, a arte e os sentimentos; nessa linha, mas bem mais pra lá do que pra cá, gosto muito da acidez e da perspicácia da @lianafink, cartunista da New Yorker.

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Também no insta sigo contas lindas de bordado, atividade que adoraria fazer mais: @sarahkbenning tem pontos cheios e volumosos para desenhos botânicos que de tão realistas dão vontade de mexer na terra; @michelle.kingdom borda como se fizesse cinema (acho as texturas rabiscadas da pele de suas mulheres coisa-mais-linda).   

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Michelle Kingdom
  • algumas musiquices || minhas melhores fontes de música estão espalhadas pelas listas 2016 da Incompleta, então só abri este item para dizer ~obrigada, amigos, vocês tornam meu Spotify um lugar para onde gosto de voltar no fim do dia. Ah, o prêmio de melhor dancinha vai para Because I`m me, do The Avalanches. QUE gurizinho!
  • um texto || da peça do Vinicius Calderoni, Arqueólogos, em que ele contracena com Guilherme Magon. Os dois amigos interpretam um tipo de ser humano que me agrada muito, algo entre ~locutor do dia a dia e ~filósofo da ancestralidade. Parece complexo, e não deixa de ser, mas também tem uma simplicidade tão enorme que a imagem que fica – um abraço longo e demorado dos dois – vai te enroscando até lembrar por que o amor ainda é a potência maior que existe. Comprei o xerox do texto na saída, para o caso de um dia esquecer disso.   

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  • sete lugares que entraram para a minha cartografia afetiva || a ciclovia da Avenida Paulista à noite, o mar visto de cima em Ilha Grande, o mar visto por baixo em Coron, uma casa na Rua Felipe de Alcaçova, as plantas exuberantes de Inhotim, as ladeiras escorregadias de Ouro Preto e as casinhas de Hamburgo Velho, onde senti de verdade que tinha voltado para o Rio Grande do Sul.

 

2. PAULO LEIERER, 31 anos, cineasta

Alguns discos do ano passado pra ouvir esse ano, caso você tenha interesse e não tenha ouvido antes

Não me sinto apto a dizer quais são os melhores, carimbar assim. Daí ficou uma lista puramente pessoal, de discos legais do ano passado, em ordem alfabética. Por isso mesmo vão faltar alguns que já são batata: o do Bowie, o do Radiohead, esses todos que pulularam nas listas de melhores do ano, mas que não são os que escuto no talo sentindo alguma coisa.

O critério é pessoal. Coisas de que gostei e achei legais de compartilhar. Vivo ouvindo de muita gente que precisam de coisas novas pra escutar, então, dependendo do seu gosto, pode ter algo interessante aqui.

 

// CAR SEAT HEADREST – TEENS OF DENIAL

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É difícil falar desse disco, ou tentar explicar o porquê de gostar tanto dele. Na verdade, ele é uma paulada doída e barulhenta, mas tudo me parece tão verdadeiro, tão sem filtro e franco que é impossível negar o poder de catarse. Tem influências de um college rock bem massa e jovem, como o Pavement ou o Archers of Loaf. As letras, absurdas.

Pra escutar.

 

// CHARLES BRADLEY – CHANGES

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Disco soul arretado de bom, com um cover improvável de uma música do Black Sabbath que é algo de outro mundo. O vídeo é meio melodramático demais pra mim, mas não é disso que estamos falando, né?

Pra escutar.

 

// CYMBALS EAT GUITARS – PRETTY YEARS

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Pode parecer que nada faz muito sentido. Essa capa, as letras, as escolhas sonoras, esse título de banda (o que é afinal Cymbals Eat Guitars?), mas algum faz. Eu acho que faz. Acho também uma das bandas mais interessantes e consistentes dos últimos tempos. __ Pra escutar.

 

 

// FRANKIE COSMOS – NEXT THING

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Esse vídeo lindo aqui já diz tudo.

 

 

 

// HAMILTON LEITHAUSER – I HAD A DREAM THAT YOU WERE MINE

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O vocalista da banda The Walkmen tem uma das vozes mais legais e marcantes do indie rock, para mim. Ele põe tudo nela, e o resultado é incrível. Esse disco solo, com o Rostam Batmanglij, ex-membro do Vampire Weekend, é bem massa.

Pra escutar.

 

// HIS GOLDEN MESSENGER – HEART LIKE A LEVEE

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Há vida pro indie folk além de bandas que tocam ukelele com um corinho feliz no fundo usando chapéus, ainda bem. Além de ter uma das capas mais bonitas do ano, o disco do His Golden Messenger traz músicas tocantes e fortes sem precisar apelar. Ouro. __ Pra escutar.

 

 

// JEFF ROSENSTOCK – WORRY

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Putz, é bem divertido e isso já serve de justificativa. Não é?

Pra escutar.

 

 

// MUTUAL BENEFIT – SKIP A SINKING STONE

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Folk pra ouvir de olhos fechados e encontrar o sentido da vida. Meio que isso.

Pra escutar

 

 

// NOTHING – TIRED OF TOMORROW

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Com esse título de disco e músicas chamadas “Abcessive, Compulsive, Disorder”, “Curse Of The Sun” e “Eaten By Worms” já dá para imaginar que não vai ser esse o disco fofinho pra postar com coração no Facebook. O estilo pesado e hipnótico das guitarras faz tudo parecer meio nebuloso, desarranjado ou, no mínimo, mais profundo. Massa.

Pra escutar

 

// PINEGROVE – CARDINAL

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Como tamanho não é documento, nada mais justo que um disco de 30 minutos e 8 musiquetas estivesse aqui. Letras muito legais, e música que mistura várias referências do rock alternativo dos 90 pra cá de um jeito que é ao mesmo tempo único e referencial. Faz sentido? Achei que sim, mas não sei.

Pra escutar.

 

// TEENAGE FANCLUB – HERE

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Os caras já ‘tão meio tiozinhos, fazendo clipe chumbrega jogando futebol na praia, mas putz, é legal pra caramba a coisa toda. Não sou grande entendedor da banda, e vi muitas resenhas falando que esse é o disco mais “gostável” deles. Não sei o que isso quer dizer, na verdade, mas minha parte de gostar está feita.

Pra escutar

 

// THE AVALANCHES – WILDFLOWER

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Infalível nas baladinhas, mistura soul, música eletrônica, indie e R&B de um jeito único e divertido. Impossível ouvir sem dar aquela chacoalhadinha.

Pra escutar

 

 

// WEYES BLOOD – FRONT ROW SEAT TO EARTH

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Me lembra as cantoras de voz cheia, redonda, como a Joan Baez. Só que fazendo músicas pros dias de hoje. Com um pé cá e outro lá, o resultado é muito bom.

Pra escutar

 

 

// WHITNEY – LIGHT UPON THE LAKE

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Sempre ouvi tomando café, sempre dá certo.

Pra escutar

 

 

// WILCO – SCHMILCO

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Wilco pra mim é que nem o Woody Allen. Pode não ser o melhor disco dele (ou melhor filme do Woody), mas já é mais legal do que quase todo o resto que sai por aí (exagerei, eu sei). __ Pra escutar

 


 

3. MARCELO BUENO CURVO, 40 anos, flâneur

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// na tela que se move

  • Easy (série – Netflix)
  • [não foi]

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// escutados por aí

  • Mothers – When You Walk a Long Distance You Are Tired (“Kat é artista plástica”)
  • Big Thief – Masterpiece
  • Okkervil River – Away (RIP Okkervil River)
  • Frankie Cosmos – Next Thing
  • Angel Olsen – My Women
  • Money – Suicide Songs

I was crushed by the weight of my own ego

But never honest enough to say it__ Mothers

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//  escutadas por aí que vieram do passado

  • P. S. Eliot – 2007-2011
  • Karen Dalton – It’s So Hard to Tell Who’s Going to Love You The Best
  • Connie Converse – How Sad, How Lovely
  • Hope Sandoval and The Warm Inventions – Bavarian Fruit Bread
  • Juan Gabriel – en el Palacio de Bellas Artes

// os topos dos edifícios, os morros, as ruas, as pessoas

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fotografias feitas pelo Marcelo 🙂

 

4. JULIANA BRITO, 27 anos, fotógrafa/videomaker e arte-educadora

Isso não é um ranking do the best of, mas sim um passeio pelos momentos mais marcantes do ano passado. Compartilho com vocês um punhadinho de boas lembranças em ordem mais ou menos cronológica.

2016 foi um ano em que o protagonismo feminino atingiu seu ápice na minha vida e teve que dividir espaço com minhas paixões arrebatadoras.

  • Comecei o ano fazendo câmera para um documentário chamado CHEGA DE FIU FIU, que logo mais vai estar nos cinemas! O filme, dirigido por Amanda Kamanchek e Fernanda Frazão, fala sobre o assédio sexual em locais públicos conectando vítimas de assédios e especialistas maravilhosas no assunto.

 

  • Uns meses depois, no final da tarde, ao final do meu expediente home-office, estava na fase CHÁ COM COMETAS, cantarolando a música da CÉU do disco que ela tinha lançado.

 

  • Logo chegou junho e com ele um momento foda! Era quarta-feira e, como de costume, estava em direção a minha pós-graduação, mas recalculei rota e fui para a Av. Paulista. Era dia de TODAS POR ELA. Um dia de soltar o grito que estava entalado na minha garganta. Até hoje me arrepio ao lembrar de tantas mulheres juntas na rua. Coraceta para vocês!
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Manifestação “Todas por Ela”. Junho de 2016. ©Juliana Brito

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Aí­ chegou o segundo semestre do ano e eu não lembro muito bem qual a ordem dos fatos. Foi tudo como um turbilhão meio junto e meio intenso:

  • Em algum momento tive o prazer de filmar a peça Rózà na Escola que foi ocupada exatamente um ano antes: a E.E Fernão Dias. Foi um dia um pouco surreal e bastante intenso. Foi o dia que descobri que levar arte para as escolas poderia incomodar – e muito… Foi o dia que me encantei pela força da Rosa.

Quem não se movimenta não percebe

as correntes que o prendem. __ Rosa Luxembrugo

  • Numa noite de garoa fina no Belas Artes chorei como se não tivesse amanhã durante os créditos do filme Precisamos Falar do Assédio, da maravilhosa Paula Sacchetta. O filme está rodando pelos festivais! Domingo sei que vai estar na telas de Tiradentes!

 

  • Estava fotografando, a todo vapor, mulheres para um projeto que venho desenvolvendo desde o final de 2015, chamado TODAS ELAS, onde exploro o corpo feminino como um espaço de resistência e o momento de fotografar como um tempo para a escuta – seja de respiração ou de histórias. Muitos encontros fortes e ricos. Muita entrega e confiança.

No primeiro dia quente de outubro aconteceu um dos momentos mais marcantes do projeto. Fotografei minha avó materna. Fui buscá-la para passar uma tarde comigo. Não é tarefa fácil tirar ela de casa, pois já não consegue ficar em pé muito tempo e se cansa rápido com a agitação do mundo de fora. Entre conversas sobre artesanato, meus estudos, cabelos brancos, molde de flores e como pintar uma orquídea, contei do projeto. Falei de peitos, de mulheres e de escolhas. Enfim, vovó topou participar. Sei em grande parte foi para me deixar feliz. Coloquei ela sentada no meu estúdio mambembe. Tirei seu casaco e sua blusa. Para não pegar friagem com um vento que batia de vez em quando, a cobri com um xale de lã tricotada pela mãe dela. 

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Ju e a avó, em fotografia feita ao final do ensaio: “Autorretrato com Vovó”. Outubro 2016. ©Juliana Brito
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Fotografia que faz parte do projeto Todas Elas, de Juliana Brito. ©2016 Juliana Brito.

Obs: Estou expondo um recorte do Todas Elas na Ocupação Coletivo “O desejo do outro” {Espaço Ophicina} até dia 19 de fevereiro!

  • Enfim chegou novembro e realmente ocupei um espaço público! Junto com outras onze mulheres arte-educadoras do Coletivo Fi.Ar nos apropriamos do Largo da Batata num dia de muito sol.  Fizemos algumas intervenções e instalações de fios, linhas e emaranhados. Provocamos algumas pausas, desvios no caminho, brincadeiras e acima de tudo vivenciamos encontros. Acho que a gente devia fazer mais coisas desse tipo.
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“Day com Elásticos”. Novembro de 2016. ©Juliana Brito.

 

5. FABIAN GAMARRA, 37, dançarino e sonhador

Durante o ano de 2016, estive viajando pelo mundo.

Voltei definitivamente ao Brasil em 1º de dezembro, mas antes de deixar a pátria amada, em 2015, já observava que as coisas pelo nosso planeta andavam estranhas: as crises econômicas não se resolviam, assim como as diferenças políticas e religiosas, e o terrorismo se alastrava por várias regiões.

No Oriente, acompanhei notícias bem diretas sobre esses acontecimentos (muitas das quais sequer chegam aos jornais aqui no Ocidente ou ficam escondidas atrás de uma bobagem qualquer).

Porém, o mundo em geral não é uma zona de conflito,

a maioria das pessoas não quer ficar brigando, atirando ou explodindo os outros. Estes fatos obviamente existem, mas nos fazem acreditar que isso acontece o tempo inteiro, o que não é verdade.

Mais próximo do cotidiano é que as pessoas são mais boas do que más, e por alguns problemas acontecem todos esses atos horríveis que conhecemos. Claro que sei que são assuntos são bem mais complexos que isso. Entretanto, como costumo dizer por aí nas ruas: no mundo você vai encontrar somente pessoas boas, pois as más te encontrarão antes.

Isso é apenas uma figura de linguagem, mas acho que entendem o que digo.

Além disso, o que vemos pelo mundo – seja em experiências ou pequenos acontecimentos – nos faz mudar de opinão, refletir sobre o que somos e o que queremos ser, sobre como pensamos ou deveríamos estar pensando, sobre o que esquecemos mas nunca deveríamos ter esquecido.

 

As seguintes experiências e reflexões aconteceram durante o ano de 2016, enquanto viajava:

// Natureza

Comecei o ano mergulhando, nada supersticioso, meu primeiro mergulho com cilindro. Aconteceu na Tailândia. Alguns meses depois, em abril, no Nepal, o primeiro hiking nos Himalaias. Muita coisa se passou entre essas duas experiências, porém certamente algo em comum a ambas me mostrava o que sempre havia sido claro: a minha relação com a natureza. Descobri que ela é primordial, imprescindível, algo que garante nossa vitalidade e equilíbrio.

Foi durantes estas experiências que senti a minha significância naquilo. Percebi o quanto as coisas afetavam meu humor, minha saúde, minha vida de uma maneira geral e a dos outros ao meu redor. O que senti naqueles momentos deixou de ser racional para se tornar algo maior; naqueles momento me senti feliz.

 

// Sorriso

Sem dúvida, a melhor arma. Nós todos temos isso em comum, o nosso sorriso – que pode ser de simpatia, pode ser de defesa, pode ser quando jogamos nossas armas ao chão e não se é mais resiliente como se acreditava ser.

Nem todas as culturas são tão sorridentes como a nossa; das que tive o prazer de conhecer, nenhuma de fato carrega a simpatia diária que nós brasileiros somos capazes de carregar. Bem, exceto uma! Foi em Myanmar (Birmânia) onde percebi o poder do sorriso. Percebi que eu poderia ser desarmado a qualquer momento por um povo lindo, tanto fisicamente quanto em suas pequenas atitudes. Quando eu menos esperava, alguém me surpreendia com a delicadeza de um sorriso, como uma atitude bela, simples.

Tais situações fizeram com que eu me emocionasse inúmeras vezes nesse país. Estive por lá em fevereiro de 2016, e desde então aconselho a todos irem. Visitem e entenderão o poder de algo que eu achava que entendia.

 

// Receber

Outra coisa que não entendia era como receber. Pode parecer um verbo transitivo qualquer, mas quando se viaja por um bom tempo é preciso “aprender a receber”. Coloco entre aspas pois foi o conselho de uma americana em Los Angeles. Ela nos disse que precisaríamos, durante a longa viagem de 2016, aprender a receber. Estou repetindo pois foi outra coisa que demorei a entender o que significava. Ainda na Malásia, ou mesmo na Tailândia, alguns simples gestos já apontavam para o que isso significaria, mas foi somente depois de passar por alguns países da Ásia que finalmente percebi o sentido de aceitar – fosse um prato de comida, um artesanato ou aquele sorriso já mencionado. A minha cultura ocidental, cheia de preconceitos, não possuía isso em seu repertório, mas era preciso saber receber e isso demorou a acontecer.

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Reaproveitando a dica da Raquel (Mari Andrew, acima) para ilustrar o ano do Fabian :} 

 

// Tempo

Sempre achei que este era o único Deus que paraiva sobre nós. Mais uma vez, 2016 me mostrou algo distinto. Não sinto mais que ele está acima, acredito que nós somos o tempo também. Por um erro de percepção, pensava que o tempo, por si só, resolvia algumas questões – o que de fato acontece. Mas se demorei para aprender a receber, acho que demorei mais ainda para aceitar outra forma de entender o tempo. Alguns dias e meses são necessários para nos darmos conta de que mudamos, então demorei a compreender que eu já não tinha uma casa, que já não tinha amigos ao lado e que tudo era diferente, mesmo que semelhante.

A mudança é o próprio tempo em nós. Ao tirar os sapatos para entrar em alguns lugares na Índia, ao acompanhar dezenas de vezes o sol se pôr no Camboja e na Tailândia, ao sorrir para as pessoas na Turquia, ao cruzar a fronteira do Nepal caminhando, ao aceitar um almoço na Eslovênia sem cerimônia… tudo isso eram manifestações do tempo em mim.

 

// Abertura

Muita coisa já havia mudado. Todas estas experiências e consequentes reflexões já haviam me levado a ser mais aberto, mais receptivo, mais e mais tolerante com a pessoa de quem pego uma carona, com quem me atende na loja, com quem se atrasa para o jantar.

No meio do ano, eu conseguia conversar com praticamente qualquer tipo de pessoa, e o mais estranho é que a reclamação de todos era o crescimento da intolerância pelo planeta. Eu não era e nem sou especial, o que estava acontecendo é que eu havia masterizado uma grande lição, a de que não somos tão diferentes assim. Talvez, em nossa ficção criada de cada dia, sejamos, mas em nossa essência não. Eu me abri para o mundo e ele começou a se abrir para mim.

 

// Movimento

Ao voltar para o Brasil, percebi minha grande última conquista de 2016: entender e administrar o movimento. Saber que era possÌvel continuar a viajar por aqui, entender e confrontar ideias, estar aberto onde antes para mim era uma casa fechada. Quem me conhece sabe que sou daqueles que gosta de dançar, não sempre, mas bastante.

A dança é só o corpo pedindo o movimento, também primordial, do que é viver. Se ficamos parados, os músculos atrofiam, as articulações enrijecem e a mente sucumbe a pensamentos que não são nossos; o inimigo vence, seja qual ele for – e a ideologia dele geralmente não é a nossa.

 

Bem, pediram para que eu escrevesse sobre o ano passado. Preferi falar sobre mim, também no formato de lista, sem descrever muito as situações, mas dizendo o que deveria ser óbvio para mim – e que não era. Sei que não foi fácil, mas não vou ter na minha lista do ano passado uma memória suja, muito pelo contrário. Para você, querido 2016…

… um leve e sincero…

obrigado!


 

6. Texto do MATT STRANGE com coisas boas do ano, traduzido pra gente pelo ROMANO CORÁ

{ post original aqui }

{{ era minha missão checar as informações, mas ainda não o fiz // qualquer coisa avisem! }}

> Agora existe uma vacina para ebola
> A mortalidade infantil diminuiu (global)
> Aumento de 9% de sobrevivência para pacientes de câncer pancreático
> Gene responsável pela esclerose lateral amiotrófica encontrado
> Voluntários na Índia plantaram 50 milhões de árvores em 24 horas
> Taxa de suicídio diminuiu (global)
> A camada de ozônio começou a se reparar
> A Rabbinical Assembly (um lance de rabinos conservadores, pelo que eu entendi) proclamou uma resolução afirmando os direitos de trans e non-conforming individuals (não sei a tradução correta)
> Braços controlados pela mente (imagino que para pacientes com paralisia)
> Leo ganhou o Oscar
> Número de tigres selvagens aumentou pela primeira vez em 100 anos
> Pandas gigantes não estão mais ameaçados
> O avião com energia solar deu a volta ao mundo
> A malária diminuiu 60% (global)
> Sarampo erradicado das Américas
> 93% das crianças do mundo estão aprendendo a ler e escrever (maior porcentagem na história da humanidade)
> A China planeja se tornar completamente dependente de energias renováveis até 2020 e tem planos globais para 2050
> Grande aumento de uso de energia renovável (global)
> Noruega se comprometeu com zero desmatamento
> Todas as mais populares cadeias de fast food e conveniência dos Estados Unidos prometeram usar apenas ovos de pássaros criados livres até 2025
> Lobos selvagens voltaram à Europa
> Salmão selvagem apareceu de volta no rio Connecticut pela primeira vez desde a Revolução Americana
> Veado da Virgínia não está mais ameaçado
> Tartaruga verde não está mais ameaçada
> Sea World não vai mais reproduzir orcas
> Baleia jubarte não está mais ameaçada
> Global aid subiu 7% (não sei o melhor jeito de traduzir)
> Ano mais generoso de todos os tempos em termos de caridade e auxílio na América (suponho que ele queira dizer Estados Unidos da América)
> Ano mais generoso de todos os tempos em termos de caridade e auxilio na China, com $15 bilhões (suponho que de dólares)


 

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