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Seguindo a missão : ) , hoje a lista tem os incompletos Fábio Kawano e Laura Del Rey + os colaboradores e convidados: Camila Gutierrez, Giuliano Rossi, Marcelo Barros, Bruna Schuch e Victor Fisch.


1. FÁBIO KAWANO

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DISCOS DE 2016

/// Anna Meredith – Varmints (Moshi Moshi Records, 2016, Reino Unido)

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Experimentações, eletrônica e música clássica. Por vezes excessivo e confuso, nunca deixa de instigar e surpreender. Anna diz que tudo na sua música é meticulosamente concebido e que o espaço para improvisos quase inexiste. Difícil de imaginar. Aqui, a sensação é de liberdade total.

 

Escute: Something Helpful, Taken, R-Type e Dowager.

 

/// A Tribe Called Quest – We Got It From Here… Thank You 4 Your Service (Epic, 2016, Estados Unidos)

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No ano dos drinks, um single malt, 18 anos.

Escutar: We The People…, Dis Generation, Melatonin e Black Spasmodic.

 

 

/// Hope Sandoval and The Warm Inventions – Until The Hunter (Tendril Tales, 2016, Estados Unidos)

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Mazzy Star e My Bloody Valentine são bandas da vida. O som das duas pulsa forte nesse disco.

Respire fundo, solte o ar e mergulhe de cabeça. Hope Sandoval faz música para preencher espaços vazios.

Escute: Into the Trees, A Wonderful Seed, Let Me Get There e Day Disguise.

 

/// Frank Ocean – Blonde (Boys Don’t Cry, 2016, Estados Unidos)

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Poderoso e minimalista. As melodias são matadoras e a voz de Frank Ocean indica o caminho do coração. Pura poesia. Pura invenção. 

Escute: Nikes, Ivy, Pink+White, Nights e Solo (Reprise).

 

 

/// Solange – A Seat at the Table (Columbia, 2016, Estados Unidos)

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O irmão do Blonde. A voz que complementa. A conversa mais bacana do ano foi a deles, Frank e Solange.

 

A melancolia, a tristeza, a dor e a alegria te convidam para uma mesa de bar. A própria Solange explica: “I think that ‘A Seat at the Table’, for me, is an invitation to allow folks to pull up a chair, get very close and have these hard uncomfortable truths be shared”.

Escute: Weary, Cranes in The Sky, Don’t Tocuh My Hair e Mad.

 

/// Noname – Telefone (Noname, 2016, Estados Unidos)

noname-telefoneEscutei aos 45 do segundo tempo. Nada me pareceu mais 2016 do que esse disco. Traz a urgência e convida à intimidade. Renova os ares e nos mostra a beleza nos lugares menos óbvios.

Escute: Diddy Bop, Bye Bye Baby, Sunny Duet e Reality Check.

 

 

/// The Avalanches – Wildflower (Modular Recordings, 2016, Austrália)

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Explosão de sabores. Confusão de estilos e samplers. Os sons parecem embaralhados e o sentido muda a toda hora. A graça aqui é você escutar repetidas vezes. Espere sempre por alguma surpresa. Cara de interrogação, curiosidade e satisfação garantida.

 

Escute: Beacuse I’m Me, Subways, If I Was a Rockstar, Colours, Harmony e Livin’ Underwater (Is Somethin’ Wild).

 

/// Kaitlyn Aurelia Smith & Suzanne Ciani – FRKWYS Vol.13: Sunergy (Rvng Intl., 2016, Estados Unidos)

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Sintetizadores e vista para o mar.

Assista: Sunergy.

 

 

/// Julianna Barwick – Will (Dead Oceans, 2016, Estados Unidos)

julianna-barwickMúsica para os mortos. Exorcismo de demônios. Confessionário. A voz de Julianna Barwick nunca esteve tão clara e assustadora. A sensação é de paz de espírito. Estamos prontos para ver a luz. 

Escute: St. Apolonia, Nebula, Big Hollow e Wist.

 


 

2. CAMILA GUTIERREZ, 32 anos, cineasta (sócia da Toca dos Filmes) e nossa colaboradora frequente

  • American Crime Story: The People v. O. J. Simpson. Uma minissérie do canal FX que foi super premiada em 2016. É sobre a história real do julgamento do O. J. Simpson, acusado de assassinar a ex-mulher em 1994. Além de ser aquele tipo de série tão envolvente que faz você assistir um episódio atrás do outro sem querer parar (nem me lembro quando foi a última vez que tinha feito isso),

ela toca em temas muito interessantes e atuais – apesar da história se passar há mais de 20 anos – sobre a nossa sociedade, como fama, jogos políticos, manipulação, o papel da mídia, a maneira como as mulheres são tratadas. O elenco é incrível e não à toa foi tão premiado. Além de tudo, acho que a série retrata o caso e os personagens de uma maneira humana.

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Eu, que geralmente prefiro os dramas humanos aos tribunais e jogos políticos, gostei muito.

  • Um quadrinho para recomendar também: A Gigantesca Barba do Mal. Foi lançado aqui no Brasil em 2016 pela editora Nemo. Acho incrível o jeito como ele narra a história e o traço é belíssimo. 🙂

 

3. GIULIANO ROSSI, 34 anos, cineasta e sócio da produtora Toca dos Filmes

Então eu queria frequentar lugares legais em São Paulo.

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O Grande Grupo Viajante // Cia Bambolística
  • A Paulista Aberta já virou um clássico (pausa para um “tomara que continue assim em 2017”). Vale prestar atenção nas bandas e manifestações culturais que acontecem nela aos domingos. O Grande Grupo Viajante, Black Papa, Picanha de Chernobill (esta, sempre acompanhada da Cia Bambolística – que, além das performances na Paulista, dão cursos de bambolê pela cidade).
  • Gente jovem e criativa comanda um estúdio musical em Pinheiros. O Estúdio Aurora também vai continuar em 2017 a abrir suas portas uma vez por mês ao público para shows intimistas dentro da própria sala de gravação. Bandas e artistas independentes ali, na sua cara, sem palco, há poucos metros de você. O ingresso é barato e vai todo para as bandas. E dá pra tomar uma cervejinha também.

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  • Uma casa no alto da Lapa é a moradia de um músico, uma tatuadora, um chef de cozinha e um mestre cervejeiro. E duas cachorras. E abre suas portas quase diariamente para o que eles chama de vivências. Você chega na hora do almoço, senta e come. E em 2017, além dos almoços, em um domingo por mês vai ter flash day. Você pode fazer uma tattoo, comer gostosuras, tomar uma cerveja artesanal e assistir a um showzinho na sala da casa. A programação fica na página no facebook: Projeto Alberto Seabra, 1128.

 

4. LAURA DEL REY

Ironicamente, em fotografia e livros ˜vô ficá devendo˜, porque mais corri atrás do atraso do que descobri coisas novas 🙂 , então:

/// FILMES

Não sei se foi a dureza da vida real, mas me apeguei às ternuras do Cinema em 2016. Cito 5 – dos quais 3 são divididos com a lista do KZ: Certo Agora, Errado AntesHong Sang-soo; Depois da TempestadeKore-Eda; Paterson Jarmusch; As Montanhas Se Separarm – Jia Zhang-Ke (que pessoa que sabe filmar) e Sabor da Vida, da Naomi Kawase – que no dia que vi não me pegou tanto, mas foi permanecendo o ano todo comigo – e tem um dos choros mais lindos da história; vou precisar mesmo rever.

Talvez um pouco mais difíceis de buscar para assistir, listo três grandes filmes de mulheres (todos vistos na Mostra de São Paulo):

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Essa coisa maravilhosa que é o Ascent.
  • Ascent, minha obra do ano, é da Fiona Tan, nascida na Indonésia e que hoje vive em Amsterdam. Eu já vinha gostando de filmes “deste tipo” em 2015, quando o Fábio nos mostrou O Descobrimento de Américo, do espanhol Miguel Mariño, e assistimos, com poucos meses de diferença, o Visita ou Memórias e Confissões, do Manoel de Oliveira. Estou usando a expressão este tipo para tentar falar de coincidências que extrapolam o aspecto formal (os três se utilizam de imagens de arquivo e voz off com textos poéticos – em 1ª pessoa no caso de Ascent e O Descobrimento, e em duas camadas distintas no Manoel: o diálogo entre os dois “invasores” (visitas) de sua casa e os momentos em que o diretor se dirige diretamente à câmera). É possível aproximar esses filmes, também, por uma certa busca obsessiva; uma escavação que procura camadas de sentido no choque ou intimidade com determinadas coisas (uma cena, uma casa, uma pessoa, uma perda). Todos investigam, a seu modo, um lugar, dando voltas ao redor de instantes passados para preencher certas faltas e tentar permanecer.

{ desculpem postar um trailer de 2015, mas vale tanto! }:

Voltando ao Ascent, ele é e precisa ser entendido como um projeto, do qual fazem parte dois vídeos e uma exposição fotográfica. Eu assisti apenas um dos filmes, mas esse caráter de projeto, quase missão, estava ali. O longa (um documentário ficcional) trata da história de uma inglesa e seu falecido marido (Hiroshi), através de imagens do Monte Fuji. São pouquíssimos trechos em movimento e mais de 4 mil fotografias, que não fazem apenas “base” para o lindo texto lido por ela em tom de carta, mas questionam, potencializam e por vezes contradizem as palavras ditas. O Monte Fuji aparece em todas as imagens. O marido, que não podemos ouvir, ver ou ler, é apresentado pelo contato com esse arquivo visual da montanha e pelas memórias nem sempre precisas da esposa. Nesse processo espelhado de escavação, emerge muito sobre o amor, sobre ela e sobre a história do Japão. Um filme de sobreviventes.

I’m trying to remain in the present,

but it’s often too late.

__ Nicolas Wormull

 

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  • Eldorado, da Salomé Lamas. Esse aqui é um soco violento, pessoal… mas me senti impelida a listar porque é muito bom. A diretora, portuguesa, decidiu retratar “a comunidade instalada em maior altitude no mundo, La Rinconada y Cerro Lunar”, a 5500 metros, nos Andes peruanos. O primeiro plano do filme (uma câmera estática dentro de uma das cavernas de mineração do lugar, com vozes off dos moradores) dura tanto tempo que levou umas tantas pessoas a saírem da minha sessão – mas erraram feio, erraram rude. São impressionantes as imagens a seguir, os depoimentos, a vida naquele lugar insalubre em busca do básico para existir. A permanente tensão apocalíptica destoa do ritmo “calmo” do filme, mas se soma à paisagem desolada e gélida dos Andes e àqueles rostos exaustos para nos fazer questionar fundo a violência, a ambição, o poder do grupo e a nossa humanidade. Algo para ver, doer e voltar aos mais básicos por quê’ s. (E um trabalho de som muito interessante, também).
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Salomé Lamas e Nele Wohlatz. Um grande ano para as mulheres no Cinema.
  • Futuro Perfeito, da Nele Wohlatz. Esse delicado filme acompanha os primeiros momentos da chegada de uma adolescente chinesa à Argentina, onde passará a viver. O roteiro foi desenvolvido em parceria com a atriz Xiaobin (nome da personagem, também), cuja vida coincide profundamente com a história do filme. Curtinho, sutil, inteligente e doce, nos leva para andar pelo cotidiano de Xiaobin (aulas de espanhol, “bicos” que consegue para fazer dinheiro, a relação com a mãe) e, através de uma simplicidade enxuta e fina, emociona profundamente. Também tem um dos melhores finais dos últimos tempos. || Linko aqui a crítica que nosso amigo Bruno Carmelo (que ontem listou filmes para a Incompleta) fez sobre Futuro Perfeito : ) .

(E sim, não fui uma boa brasileira este ano – mas adoro Aquarius).

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Bilhão, um brasileiro etéreo e litorâneo

/// DISCOS NACIONAIS

Ao começar a lista, percebi que metade do que tinha em mente (Boogarins, Rodrigo Campos, Letuce etc) é de 2015. Mas a coisa não ia ficar assim, 2016 precisava ser melhorado, e logo lembrei que foi um ano massa para a nossa música sim 🙂 .

Queria demais da conta eleger o Lanches, da BRVNKS, como disco do ano, mas infelizmente não terei essa alegria: só gostei do nome mesmo. E pois que, para começar, não posso fugir dessas belezinhas já muito comentadas:

  • Metá MetáMM3. Que bom ter podido ouvi-los ao vivo, num despretensioso show gratuito na Pinacoteca – meu primeiro contato com as novas músicas. Acabei não acompanhando os projetos paralelos do trio (Encarnado – 2014; Passo Torto – 2015 e Charanga do França – 2016… talvez haja outros mais?), então estava realmente com saudade. Gostei do peso e agressividade do disco novo, das letras, dos gritos, mas gosto especialmente daquela parte difícil de explicar das coisas e que, no caso deles, é a maneira como a música que fazem mexe com todo o nosso corpo. Existe algo de mágico na associação desses três, e felizmente a força segue com eles. Meu favorito do ano.

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  • Liniker e Os CaramelowsRemonta. Estava curiosa para a chegada desse disco desde os vídeos de YouTube (acho que todos estavam) – e voilà: coisas boas chegaram após o EP Cru, embora minhas favoritas ainda sejam as primeiras que conheci. A voz, a pegada, o vigor – tudo tinindo também ao vivo, diga-se de passagem. A gente fica mordido, não fica?
  • TernoMelhor Do Que Parece. O melhor deles, me parece, num trocadilho realmente involuntário. Se você só viu os clipes massa da banda, achou tudo simpaticão mas não foi adiante, é uma boa hora :} . Estão graciosos, soltinhos, com o bolor gostoso dos 60/70s, porém agora mais… firmes?

Dos três acima, se quiserem começar por algum ponto (o que é meio equivocado, porque discos são histórias, blablablá, mas vai que você tá sem tempo), destaco: a) Metá Metá: Oba Koso, A Imagem do Amor, Angôuleme, Três Amigos… (difícil não ouvir tudo, como se vê); b) Terno: as incríveis Minas Gerais e Melhor Do Que Parece. E tem Culpa, a música de trabalho, que é boa também e traz bom humor, esse valor tão abandonado : ) . E do c) Liniker, para mim ficam Zero e Caeu (já presentes no EP, mas aqui em versões retrabalhadas) e Remonta.

“Um tique no ponteiro

E o sol mudou

O pôr do sol nasceu assim

Um taque no ponteiro

Você mudou

Pra mim, você nasceu assim…”

  • Uma outra grande JOIA, que ouvi já em 2017, é o disco do Rômulo Fróes com o César Lacerda (e olás do Rodrigo Campos, o que significa todo um +++ cremoso). Bom, o Rômulo é aquela coisa… vai ter sempre quem torça o nariz e freie na sua “estranheza”, mas sou das que gosta e em Meu Nome É Qualquer Um amei. As duas vozes tão peculiares, dele e do César Lacerda, encaixam lindamente juntas, com os violões e com o cavaquinho do Rodrigo. Faixas para começar essa ˜folia sombria político-sexual˜: O Meu Nome É Qualquer Um, Transa Qualquer Um e Ponto Final, para pontuar três momentos bem distintos

barro-miocardio

  • Habemus também estreias massa. A primeira é o poliglota e ˜que surpresa boa!˜ Miocardio, do Barro, que tem inclusive uma participação da Juçara (e uma faixa inicial daquelas “pegajosas do bem” – mas pode ir seguindo que ele vai passar por vááários outros tons). A segunda é o delicado, viajante e marítimo Bilhão (Bilhão), um dos meus favoritos do ano. Nas fichas técnicas de ambos, vários nomes já conhecidos (caso alguém goste de ver essas ligações-entre-músicos como eu gosto). Seguindo nos sotaques, O Mesmo Mar Que Nega a Terra Cede à Sua Calma, da Bruna Mendez. Descobri esses três discos pesquisando listas de sites bacanas (como o Miojo Indie, por exemplo) e sim, o sotaque delícia (Pernambuco, Rio e Goiânia, se o Google estiver certo) acrescenta muitos pontos aos trabalhos, mas não é apenas isso. São discões, capas bonitas… todo um universo a explorar e ainda clipes ótimos, como este da faixa 1 do Bilhão:

  • Como menções honrosas, álbuns que não me pegaram tanto no conjunto, porém que têm faixas belíssimas: Tatá AeroplanoStep Psicodélico; RashidA Coragem da Luz e SabotageSabotage.
tata-aeroplano
Tá, tá, tá…

 

/// DISCOS ESTRANGEIROS

Vou me estender menos aqui, porque os demais colaboradores já deram e darão conta de muita coisa que eu citaria (e que tantas vezes ouvimos juntos). Menções deles que reitero: MothersWhen You Walk A Long Distance You Are Tired (outro disco de estreia; que voz, que título, que músicas de chorar em posição fetal) e The AvalanchesColours (tudo correto, a melhor vibe, um negócio viciante mesmo).

Para encerrar, umas coisinhas que ficaram de fora nas listas deles:

  • Anohni – 4 Degrees. Antony and the Johnsons agora é Ahnoni. E o disco dela, que me foi apresentado pelo Romano Corá no comecinho de 2016, seguiu comigo até na piscina de 2017. Intenso, experimentalismos por vezes sombrios, bom para embaralhar as ideias.

anohniblake

  • James Blake – The Colour In Anything. O nome desse disco. A voz desse cara. Não é o álbum mais-mais, no conjunto das músicas, porém não dá para não ouvir e listar. Se dê essa uma horinha ao lado do Blake, olha a cara dele pedinu.
  • Jesca Hoop e Sam Beam – Love Letter For Fire. Não é preciso gostar de Iron and Wine e da carreira solo da Jesca, porque a coisa aqui é um pouco diferente. Conheci pelo npr | tiny desk concert (e confesso que às vezes até prefiro essa apresentação mais minimalista do que a produção do disco). Terno, doce, meio climão de pegar a estrada, letras lindas e duas belas vozes – que, somadas, ficaram mais fortes. Talvez vocês achem mimimi, mas escutem um pouquinho, de repente :}
  • Outros: Explosions in the Sky (seguem ótimos e o lindo show de 2015 ainda reverbera no corazón, mas não é o álbum mais interessante deles); PJ Harvey (maravilhoso; podia ter posto acima, mas agora deu preguiça); Rihanna; Charles Bradley; Esperanza Spalding; Ty Segall
Mimi?
Mimi?

 

5. MARCELO BARROS, 40 anos, designer e artista visual

Minhas paixões em 2016

Acabei escolhendo não fazer rankings de tudo aquilo que li, ouvi, senti e presenciei, uma vez que 2016 foi um ano em que busquei vasculhar coisas antigas e conhecer um pouco mais delas ou algo daquelas referências que quase sempre sussurram em nossos ouvidos, mas as deixamos de lado para vivenciarmos o que acontece no momento presente. Por conta disso, pouco “pesquei” do que nasceu no último ano, mas obviamente não deixei de estar atento a ele:

/// Artes visuais

Repouso é o nome da exposição da artista visual Laura Gorski, exibida no Centro Cultural São Paulo, no período de 6 de agosto a 30 de outubro, que me arrebatou e me tirou dos trilhos.

laura gorski

Tratava-se de uma instalação composta de três salas interligadas, as quais apresentavam um conjunto de pedras, galhos e um barco envoltos em áreas pintadas de preto até determinadas alturas, sugerindo um ambiente de submersão nas profundezas de nossas almas. Ela acabou por desnudar aquilo que em nós é supostamente invisível, aquilo que lutamos para dar contorno, mas que muitas vezes transborda.

A instalação não está mais disposta para a visitação, mas ainda é possível vê-la no portfolio da artista.

 

/// Discos

Música é algo que faz parte da formação do meu DNA, portanto de impossível dissociação. Em 2016 mergulhei nos mares das décadas 60, 70 e 80, porém de vez em quando emergia para observar as novidades. Dentre elas eu não poderia deixar de citar o perturbador Blackstar, do mestre David Bowie e o não menos doloroso A Moon Shaped Pool, do Radiohead, mas como estes já constam nas 10 entre 10 listas de melhores álbuns de 2016, pulo a vez para outros dois que me contaminaram:

  • O primeiro é o álbum Post Pop Depression, décimo sétimo álbum de estúdio do incrível Iggy Pop, com a produção certeira de Josh Homme, vocalista e guitarrista do Queens of the Stone Age, e com as imprescindíveis participações de Dean Fertita (Queens of the Stone Age, The Dead Weather, The Raconteurs e The Devotees) e Matt Helders (Arctic Monkeys). Lançado em março de 2016, Post Pop Depression soa sombrio, punk, sujo e reflexivo. Tem pitadas de The Idiot, seu álbum de 1977, no entanto é mais vigoroso, moderno e furioso. Traz, em cada acorde, grunhido e distorção, a força motriz de Josh Homme, para extrair de Iggy o seu melhor, e uma empolgação que não se via há algum tempo.

iggy pop

  • Em seguida, lançado em setembro de 2016, A Seat at the Table, terceiro álbum da cantora Solange Knowles, soa tão impecável, moderno e minimalista quanto a finesse que a mistura do R&B com o pop e o soul conseguem gerar. O álbum é recheado de elementos instrumentais simples, econômicos, enxutos e de gosto bem refinado, valendo-se pelos pequenos detalhes e deixando as vozes, letras e interlúdios permearem todas as canções. Essa “economia sonora” não somente vem do refinamento musical da cantora e compositora, mas muito pelo desejo de dialogar com a comunidade negra dos EUA. A Seat at the Table é um grito contra a crueza do racismo e a opressão sofrida pelas mulheres em nossa sociedade. Só isso já vale a audição.

 

/// Livros

Tenho que admitir que não li tantas obras literária quanto desejava. Passei o ano em meio a livros técnicos, de arte e filosofia. No entanto, procurei conhecer um pouco mais as obras de alguns autores que têm me sensibilizado nos últimos tempos.

valter-hugo-maea-desumanizacaoEm 2013 descobri o trabalho de Valter Hugo Mãe, lendo o Filho de Mil Homens, que me pegou de súbito e me fez desejar conhecer toda sua obra, quase compulsivamente.


Neste último ano pude conhecer A Desumanização, 
quarto romance de Valter publicado em 2013 pela falecida Cosac Naify e, até então, a sua obra mais recente (no final de 2016, o escritor lançou o Homens Imprudentemente Poéticos), e pude constar que talvez se trate de sua obra mais triste, dolorosa e de uma beleza delicada.

A história se passa nos fiordes islandeses, sob a ótica de uma menina com aproximadamente 11 anos de idade. Ela nos conta quais transformações sua vida sofreu após a perda de sua irmã gêmea; aborda uma suposta salvação na dor e na tristeza. Lágrimas garantidas.


 

6. BRUNA SCHUCH, 29 anos, designer gráfica

a_sobre mais que música

Eu queria falar sobre Radiohead sem falar do álbum novo mas falando do álbum novo. Dai alguém fez melhor e puxou o ppt:

 

b_sobre preciosidade

O projeto colaborativo e comemorativo dos 40 anos de lançamento da Voyager e o Golden Record. Uma obra mais do que para a vida, para a eternidade. Me encanta cada pedacinho.

cover-diagram

 

c_sobre práticas e libertações diárias

Indico o perfil Personal Practice, uma das melhores descobertas de 2016.

Todo dia uma música. Toda música uma dancinha. Toda dancinha um potinho de felicidade.

E para quem curtir e quiser um incentivo para começar, tem a playlist no Spotify.

 

internet-time
d_sobre sentimento

 

7. VICTOR FISCH, 32 anos, cineasta e professor

Destaco esses curtas que passaram no Cinefest Gato Preto, festival do qual sou curador, por 3 motivos: são muito interessantes, são muito diversos e precisam ser assistidos!

 

/// Lúcida | Fabio Rodrigo e Caroline Neves | 16 min | Itaquaquecetuba

Curta que foi premiado no Gato Preto como melhor filme, melhor fotografia e melhor roteiro.

O filme é simples e forte. Fabio e Caroline fizeram na raça, por ser um tema do qual sentiam que precisavam falar e ainda usaram imagens de seu filho, filmadas no celular. Um filme periférico feito por quem sabe do que quer falar e como falar.

Lúcida ainda passou por Tiradentes, Gramado e mais 20 festivais, recebendo 8 prêmios.

{ entrevista aqui }

 

/// Quintal | direção André Novais Oliveira | 20 min | Contagem

Foi premiado no Gato Preto como melhor atuação para Maria José Novais de Oliveira, a mãe do diretor André Novais – que já é consagrado por seus filmes. Um dos meus favoritos dele é Fantasmas, que dá para ver no YouTube. Quintal foi até para Cannes. André faz parte de um grupo de cineastas de Contagem-MG, da Filmes de Plástico, que realizam muitos filmaços.

Quintal é brilhante. Um filme de realismo fantástico a partir de um cotidiano banal. Humor, simplicidade e uma excelente atuação dos protagonistas, pais do diretor.

 

/// 12 Brinquedos e Uma Sentença | direção William Mur | 10 min | São Paulo

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{ assista o filme completo }

William Mur faz uma paródia muito engraçada do clássico 12 Homens e Uma Sentença, com teor infantil: a menina não comeu a salada. Foi culpa da Chupeta? William utiliza praticamente só fotografias dos bonecos e dublagem das falas – e consegue um resultado surpreendente.

O Gato Preto foi o primeiro festival a exibir este filme, um importante achado.

 

/// Tango | direção Francisco Gusso e Pedro Giongo | 12 min | Curitiba

Premiado no Gato Preto como melhor som e melhor cartaz.

O filme é de uma beleza incrível. Uma obra de arte, cujo trabalho pode ser observado nesse making of. Minucioso, cuidadoso, artesanal. Além disso, ainda tem uma ótima história e trabalho de som. Os diretores curitibanos já trabalharam juntos em outro projeto, o Parque Pesadelo.

O Gato Preto foi o primeiro festival a premiar o curta.

 

/// Boa Noite, Charles | direção Irmãos Carvalho | 19 min | Rio de Janeiro 

boa-noite-charlesOs irmãos Carvalho são dois jovens da periferia do Rio de Janeiro que me chamaram muito a atenção este ano. Enviaram três filmes, diversos e instigantes, para o Gato Preto. Decidimos fazer uma sessão especial com os três filmes: Chico, que é um filme futurista distópico, onde jovens negros já nascem controlados pelo governo; Alegoria da Terra, que é um filme de homens da caverna que disputam uma árvore que oferece frutos e Boa Noite, Charles, uma mistura de stop-motion com o processo da realização do filme, onde os próprios diretores aparecem, irritados com os vários anos que levam para terminar a obra, enquanto convivem com a maquete em seu quarto.

{ mais infos aqui }


 

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  • CÉUS!! A lista da Lau me lembrou: CERTO AGORA, ERRADO ANTES é uma maravilha de filme, e com certeza entra na minha lista. Por ser um filme de 2015 lançado em 2016, ele acabou ficando num limbo e não entrou nem em uma lista nem noutra. Injustiça, merece estar entre os meus top 5 também!

    (Revendo a lista de 2015, vi que coloquei Kore-eda e Kawase entre os top 5 naquele ano também).

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