le fette aquatique
Essa coisa fácil que é listar.

Pois decidimos expurgar os males de 2016 elencando a parte boa do ano 🙂 .

Este post inaugural (1 de 3) tem sugestões do nosso incompleto KZ e dos amigos convidados Barbara Mattivy, Raquel Dommarco Pedrão, Luiz Otavio Pupo e Bruno Carmelo.


1. KZ

/// Discos

  • Money – Suicide Songs
  • Radiohead – A Moon Shaped Pool
  • Mitski – Puberty 2
  • Car Seat Headrest – Teens of Denial
  • Angel Olsen – MY WOMAN
  • Chance The Rapper – Coloring Book
  • Bon Iver – 22, A Million
  • David Bowie – Blackstar
  • Weezer – Weezer
  • Yuck – Stranger Things

2016 foi um ano estranho em muitos sentidos. Uma banda que eu desconhecia, Money, encabeçou a lista dos meus preferidos com o excelente Suicide Songs. O disco saiu no comecinho do ano, e em nenhum momento do ano parei de escutá-lo. Bateu até o Radiohead, o que é outro fato estranho do ano. Ainda assim, A Moon Shaped Pool fica com o 2º lugar, pois é um disco maravilhoso. Mitski vem logo em seguida com seu incrível Puberty 2, um disco que muda a cada faixa e tem talvez a melhor sequência do ano (faixas 5 a 7).

O Car Seat Headrest, que é principalmente o moleque-gênio Will Toledo, está aqui pra salvar o rock, e Teens of Denial fez isso esse ano. Já Angel Olsen fez um disco lindo, MY WOMAN, que não foi muito comentado nos meus círculos, mas sempre há tempo de corrigir isso.

money incompleta kz
Money, o disco do ano pro KZ

Chance The Rapper eu já conhecia há alguns anos, mas parece que foi descoberto pelo mundo esse ano, com o sucesso chegando com tudo pro jovem rapper, um dos favoritos de Barack Obama. Merecido, pois Coloring Book é um discão (ou mixtape, como ele chama), e “Same Drugs” é uma das músicas mais bonitas do ano. Bon Iver confundiu muita gente com o seu 22, A Million, um tapa na cara de quem espera algo como seu disco de estreia, mas ainda assim uma bela obra, cheia de sons interessantes que prenderão sua atenção se você deixar o preconceito de lado. David Bowie nos deixou esse ano, mas não sem antes fazer um disco-conceito sobre sua própria morte, que já se anunciava. Blackstar já seria massacrante sem a morte subsequente de seu autor. Com ela, é garantia de lágrimas.

chance the rapper
Chance The Rapper

Eu seria hipócrita de não listar o Weezer (White Album) do Weezer. Parece que Rivers Cuomo acertou a mão mesmo, depois do já muito bom disco que a banda havia lançado em 2015, este segue na mesma linha, trabalhando no que eles sempre fizeram melhor: rock barulhento em cima melodias gostosas de ouvir. Não é um Pinkerton, mas é muito legal e divertido. Não seja chatão.

Por fim, Yuck fez um disco e tanto em Stranger Things (nada a ver com aquele seriado). Passou desapercebido por alguns, mas é um belo disco que às vezes pega de jeito na ferida.

yuck incompleta
Não seja um chatão.

Houve muitas outras músicas e discos que mereceriam menções, e talvez seja um bom texto para escrever no futuro.

No lado dos discos nacionais, infelizmente ouvi pouco. Mas o Lê Almeida, de quem sou fã, soltou não só um, mas dois discos esse ano, ambos muito bons. Tratam-se de Todas as Brisas e Mantra Happening. Este último tem músicas mais longas e mais experimentais, mas os dois são muito interessantes e trazem grandes composições e sons incríveis. Também gostei bastante do Boogie Naipe, do Mano Brown, que traz um trabalho um pouco diferente do rapper, muito calcado em funk/soul dos anos 70, uma delícia de ouvir.

 

/// Cinema

  • As Montanhas Se Separam – Jia Zhang-Ke
  • Depois da Tempestade – Hirokazu Koreeda
  • Elle – Paul Verhoeven
  • A Tartaruga Vermelha – Michael Dukok de Wit
  • The Childhood of a Leader – Brady Corbet
  • Sabor da Vida – Naomi Kawase
  • L’effet Aquatique – Sólveig Ansbach
  • 13th – Ava DuVernay
  • Ave, César! – Joel e Ethan Coen
  • Sully – Clint Eastwood
a tartaruga vermelha
A Tartaruga Vermelha: “sublime”.

Também foi um ano atípico no cinema. Só vi 31 novos lançamentos durante o ano, uma média bem baixa comparada ao meu normal. Mas nem tão atípico assim, pois dois dos meus diretores favoritos em atividade encabeçam a lista. O belíssimo filme de Zhang-Ke, em especial, vai me assombrar por muito tempo. Paul Verhoeven também entra nessa lista de favoritos em atividade, mas infelizmente não é muito produtivo. A Tartaruga Vermelha e The Childhood of a Leader foram belas surpresas. O primeiro, uma animação sublime (é essa a palavra), e o segundo, um estudo de personagem aterrador e tristemente muito atual, com uma trilha sonora incrível de Scott Walker. O filme de Ansbach não é tão bom quanto os outros, mas me cativou. 13th poderia ser melhor, mas é muito bom, assim como Hail Caesar e Sully. Esta lista poderia ser bem diferente se eu tivesse visto o meu número normal de lançamentos, mais que o dobro do que vi este ano. Decepção do ano talvez tenha sido Capitão América: Guerra Civil. Apesar de ter gostado, e de ser muito melhor do que os filmes da DC lançados este ano, Guerra Civil é bastante esquecível, e poderia ter sido muito melhor do que é.

melhores livros 2016

 

/// Livros { literatura e HQs }

Não li o bastante para fazer rankings, mas gostei muito do novo de Jonathan Safran Foer, Here I Am, onde encontramos o autor mais ácido do que de costume, mas ainda assim com sua incrível imaginação e percepção.

Também me agradou muito Brazillionaires, de Alex Cuadros, um livro ainda inédito no Brasil contando como os maiores bilionários de nosso país chegaram aonde estão, e como vivem. O livro levanta uma importante discussão sobre os limites da riqueza não só no Brasil como no mundo.

rosalie lightning

Nos quadrinhos, posso opinar mais. Rosalie Lightning, de Tom Hart, é incrivelmente belo e devastador, e precisa ser lido. Conta a história de como sua jovem filha morreu repentinamente, e como isso destruiu as vidas dele e de sua esposa. We All Wish for Deadly Force, de Leela Corman (a esposa de Tom Hart), é também devastador, com algumas histórias tocando no mesmo assunto, e outras cuidando de assuntos um pouco mais corriqueiros. O livro todo é excelente. Também começou a publicação em inglês de uma das maiores obras de meu mangaka atual favorito: Goodnight Punpun, de Inio Asano, conta a história de um garoto normal e dos problemas de se crescer… Mas nós leitores sempre vemos o garoto representado como um pássaro! Mooncop, de Tom Gauld, é uma obra-prima minimalista sobre rotina e isolamento… na Lua!

Killing and Dying, do meu quadrinista favorito, Adrian Tomine, não poderia faltar. O livro é uma coletânea de histórias curtas que mostram como a arte precisa do autor, bem como seu talento em revelar a humanidade de seus personagens com muita sutileza.

Também não posso deixar de recomendar Tetris: The Games People Play, de Box Brown, e O Árabe do Futuro, de Riad Satouff.

o arabe do futuro
O Árabe do Futuro

Nos quadrinhos mensais, me vi me afastando de Marvel e DC e investindo em títulos menores. Recomendo fortemente 4 Kids Walk Into A Bank, de Matthew Rosenberg e Tyler Boss, e The Skeptics, de Tini Howard e Devaki Naogi. Ambas são da Black Mask Studios, uma editora ainda nova, mas com uma ética punk muito interessante e um senso estético invejável. Todo o catálogo deles parece muito interessante.

 

/// TV

Vi bem menos novos programas de TV esse ano, algo que comemoro (tem me sobrado tempo para outras coisas). Não vou listar nada, mas vou falar de duas séries que são pouco conhecidas mas definitivamente merecem mais atenção:

You’re The Worst encerrou em 2016 sua terceira temporada. A série da FXX não é muito falada, mas é uma das melhores comédias atualmente. A premissa é simples: duas pessoas horríveis se encontram e começam um relacionamento, meio a contragosto. No seu âmago é uma comédia romântica, mas a grande sacada é que os personagens são livres para serem imperfeitos. Com isso, o drama acaba entrando na equação também, e alguns episódios são na verdade muito sérios. A série teve todo um arco tratando de depressão com uma franqueza que não se vê muito facilmente na televisão, muito menos em comédias de meia hora. O elenco principal é ótimo, e valoriza muito os bons roteiros.

horace and pete

Horace and Pete é uma série totalmente feita por Louis C.K., que deu um tempo de seu excelente seriado do FX esse ano para se dedicar a esse projeto. Ele só está disponível no site do comediante, que lançou tudo de forma independente. O seriado conta a história de um bar de família, e da 4ª geração de primos que tomam conta dele, interpretados por CK e Steve Buscemi, monstruosamente bem em seu papel. Montada de um jeito quase teatral, a história fala sobre mudanças, rancores e arrependimentos. O criador leva as tendências tristes que já mostrava em Louie mais ao extremo, produzindo momentos absolutamente lindos, mas que podem ser emocionalmente desgastantes. O elenco é fenomenal, e sem esses grandes atores e atrizes o experimento talvez não tivesse dado certo. Mas deu, e Horace and Pete é uma das grandes séries de 2016, sem dúvida. Ela também é interessante pelos episódios terem sido escritos poucos dias antes das filmagens, de modo que eles refletiam as últimas notícias da época. Em um dos episódios, um dos personagens diz “Donald Trump é um homem carente, que quer ser presidente só pra preencher o vazio que sente. E nós vamos dar isso a ele, porque somos um povo muito caridoso.” A revisão deverá ser ainda mais angustiante que a primeira vez.

Para finalizar, eu realmente quase não joguei video games este ano, mas Civilization 6 me deixou feliz.


 

2. BARBARA MATTIVY, 31 anos, marketing e branding na empresa Insecta Shoes

Eu indico a Dolorez, que faz um trabalho maravilhoso de intervenção em crochê pelas ruas de SP, também linkado ao feminismo. 

Dolorez
Dolorez

 

3. RAQUEL DOMMARCO PEDRÃO, 31 anos, tradutora

La Novia, da cineasta Paula Ortiz, é talvez a mais bela adaptação de Bodas de Sangre (do espanhol Federico Garcia Lorca) já concebida. O filme concorreu ao prêmio Goya em 2016, e Luisa Gavasa (interpretando o intenso papel da mãe) saiu vitoriosa como atriz coadjuvante, assim como a fotografia primorosa de Miguel Amoedo.la novia paula ortiz

O filme é todo um banquete para os olhos, e os diálogos são extremamente fiéis aos da peça sem que isso prejudique a cadência do filme. Toda a narrativa de Bodas de Sangre se encaixa como uma luva na tela sob a tutela de Ortiz, que tempera tudo com ricas texturas, paisagens áridas, um kinetoscópio agourento e música e dança típicas do sul da Espanha; a interpretação de Inma Cuesta como a protagonista sofredora também é digna de menção.

A dupla Las Bistecs são as rainhas (e criadoras) do electro disgusting.

São hilárias, non-sense, ácidas, e apesar de seu trabalho mais notório ser o clipe Historia del Arte, ano passado elas lançaram o maravilhoso Señoras Bien, que é um prato cheio para quem curte figurino e direção de arte – cheio de peças vintage, tons pastel, unhas postiças, um hotel abandonado e muita, muita atitude.

las bistecs raquel dommarco
Bistecs!

Pra quem gosta de História, The Crown talvez tenha sido um dos lançamento mais legais dos ano porque conta, com detalhes picantes e passagens cheias de intrigas, a história de um dos maiores ícones pop dos séculos XX e XXI: a singular Elizabeth II. E, é claro, todo o mundo que faz ou fez parte da vida dela. Pessoalmente, eu destaco o episódio onde o pintor modernista Graham Sutherland é encarregado de pintar um retrato do então Primeiro Ministro, Winston Churchill. Enquanto o modelo posa, vão conversando, entre a simpatia e o estranhamento, sobre pintura, política e sobre os turvos e silenciosos lagos ingleses. Clare Foy, que simula com perfeição aquelas mãozinhas que pousam elegantemente uma sobre a outra, acabou de ganhar um Golden Globe por interpretar a monarca.

the-crown
Essas mãozinhas.

Uma das coisas mais lindas que se pode ver nessa vida é montagem de A Flauta Mágica da Komische Oper de Berlim, que esteve em cartaz no Teatro Real durante janeiro de 2016, mas que tem apresentações regulares na sede alemã. Toda a proposta de cenografia e caracterização de personagens é inspirada no cinema mudo e no expressionismo alemão, e mistura projeções com uma proposta de maquiagem poderosa, com grandes atores e uma montagem de palco extremamente inteligente. O enredo aparentemente simples da opereta esconde nuances e mensagens ocultas profundas. Como se tudo isso não fosse suficiente, vale lembrar que o libreto é formado por algumas das mais populares composições de Mozart, obras exuberantes e cheias de vida com as quais estamos familiarizados, o que faz com que pareça que estamos num show, mas muito, muito, MUITO bonito mesmo. Uma experiência ímpar.

a flauta magica


 

4. LUIZ OTAVIO PUPO, 33 anos, diretor de fotografia

Os filmes bacanas de 2016:

/// NACIONAIS

  • Aquarius – Kleber Mendonça FIlho
  • Boi Neon – Gabriel Mascaro
  • Mãe Só Há Uma – Anna Muylaert
  • Martírio – Vincent Carelli
  • Mate-me Por Favor – Anita Rocha da Silveira

boi neon

/// ESTRANGEIROS

  • A Criada – Park Chan-wook
  • A Qualquer Custo – David Mackenzie
  • Creepy – Kiyoshi Kurosawa
  • Animais Noturnos – Tom Ford
  • Anomalisa – Duke Johnson, Charlie Kaufman
  • Elle – Paul Verhoeven
  • A Bruxa – Robert Eggers
  • Ave, César! – Joel e Ethan Coen 
  • Dois Caras Legais – Shane Black
  • Depois da Tempestade – Hirokazu Koreeda
  • A Chegada – Denis Villeneuve
depois da tempestade
Depois da Tempestade

 

E, para arrematar a lista de hoje com mais cinema,

5. BRUNO CARMELO, 31 anos, crítico de cinema e editor do site AdoroCinema:

Os melhores filmes que você não viu em 2016

É comum as listas de melhores filmes do ano destacarem as produções mais prestigiosas e populares. No entanto, alguns títulos excelentes sempre escapam pelas fendas de um sistema comercial cheio de fissuras, e somem dos cinemas antes de serem devidamente apreciadas.

As pequenas produções, sem dinheiro para uma campanha massiva de marketing, dependem muito do boca a boca. Mas na competição acirrada pela exibição em salas, não ganham o tempo suficiente para despertarem a atenção dos espectadores.

O Futebol, documentário de Sérgio Oksman, vendeu apenas 138 ingressos na primeira semana, e sumiu de cartaz logo depois. É um filme lindíssimo, menos sobre o esporte do que a relação problemática entre um pai e um filho reunidos durante a Copa do Mundo. A exposição que o diretor faz de si mesmo abre espaço para o discurso crítico e uma melancolia incríveis.

o futebol sergio oskman

Curumim, documentário sobre Marco Archer, o brasileiro condenado à morte por tráfico de drogas na Tailândia, sequer teve os seus números computados por sites especializados. Trata-se de uma reflexão espetacular a respeito da pena capital e do papel das prisões como instituições de vocação vingativa e lucrativa ao invés de reabilitadora.

O anonimato não atingiu apenas os documentários. A potente ficção O Silêncio do Céu, estrelada por nomes populares como Carolina Dieckmann, não conquistou nem dois mil espectadores em sua primeira semana. Mas mereceria toda a nossa atenção: a trama sobre estupro e culpabilidade dirigida por Marco Dutra atinge uma profundidade e um lirismo excepcionais. O filme foi premiado no festival de Gramado – assim como O Futebol tinha vencido prêmios no É Tudo Verdade – mas os festivais brasileiros nunca conseguiram se traduzir em impulso às bilheterias. As produções internacionais enfrentam a mesma dificuldade: o filme mais inovador de 2015, que normalmente entraria em cartaz em 2016, foi considerado estranho demais para o público nacional. O Lagosta, crônica surreal dos relacionamentos amorosos na era contemporânea, foi lançado diretamente em VoD.

o silencio do ceu
O Silêncio do Céu

Enquanto estes filmes lutavam para conseguir salas, blockbusters monopolizavam o circuito. Rogue One – Uma História Star Wars, Animais Fantásticos e Onde Habitam, Batman vs Superman – A Origem da Justiça e Capitão América – Guerra Civil estrearam com mais de 1100 salas cada um, num circuito com 3000 salas disponíveis. Qualidade à parte, a concorrência é desleal.

Se tivermos que fazer resoluções para o ano que entra, o desejo seria apostar naqueles filmes escondidos em pequenas salas, aquelas produções que talvez ninguém tenha ouvido falar, mas cujo tema parece tão interessante. Nesta abertura ao risco devem se esconder as pérolas de 2017.

 

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