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©carine wallauer

Os endereços de um grupo de amigos foram comigo às Filipinas, de onde deveria enviar-lhes postais. Chegando no longínquo arquipélago no sudeste da Ásia, porém, nenhum modelo de cartão me agradou: preferi trazer na memória as histórias que deixam para cada um cuidar de imaginar o que eu vi. Juntos, os fragmentos falam sobre o que a viagem mudou em mim e na fotógrafa Carine Wallauer, sobre os lugares físicos e sentimentais por que passamos ao longo dos 35 dias entre maio e junho e sobre uma vontade de estar perto dessas pessoas (que ganharam ar de família após uma outra viagem ao mar), seja onde for:

 

:: Tagaytay, Cavite | para Marcelo Bueno 

Bem pôde esta viagem às Filipinas ser espelho de outra, a tua, aos Estados Unidos. Viajamos em direções gográficas opostas, mas rumo a desconhecidos gêmeos (eles estavam em nós, afinal). Hoje saí por algumas horas de Manila, a capital que me disse para não temer. Pela primeira vez, vi barcos pesqueiros – muitos e simples, quase precários – que do alto pareciam à espera de uma guerra. Também os pescadores, de longe solitários, mas de perto detentores de um saber coletivo (um deles encarou a câmera da Carine com firmeza tal que parecia ser a mesma de matar um peixe). O ar aqui pesa como a mão sobre os ombros. Senti o temido calor asiático numa das paradas no meio da estrada que, cravada entre bananeiras e coqueiros, por alguma razão deixou a cabeça descansar no verde. Tanto fazia para onde estávamos indo naquele taxi. Tínhamos começado.   

 

:: Mount Pulag, Luzon | para Camila Gutierrez

Estou nas cordilleras, área montanhosa das Filipinas onde finalmente respiro ar fresco após uma semana com fumaça de carros, motinhos e jeepneys em Manila. Depois de horas curvas em direção ao topo, que fica acima 2.922m do mar, chegamos na hospedagem de madeira. Já na minha primeira saída, com os pés na grama, vi a grandeza dos arredores da casa: muitos terrenos divididos por lavouras, sempre regulares e simétricas. Em um deles havia um sem fim de flores brancas; voando sobre elas, uma nuvem de borboletas do mesmo tom. De longe não se podia dizer o que era flor, o que era borboleta – era como se todos os pontinhos brancos dançassem juntos. Na hora pensei que era o tipo de delicadeza que te faria sorrir e deixaria a Catita com ares de campo, a fazer voar as orelhas caninas.  

 

:: Mt. Pulag Elementary School, Luzon | para Victor Fisch

Além da quietude da montanha, sei que dividiríamos aqui o olhar sobre a vida dos campesinos, descendentes da tribo dos Igorot. Parece que nunca param – desde cedo, colhem, aram, reformam a casa, alimentam os bichos, esquentam água para banhos de caneca, cozinham o arroz no fogo de chão (depois a panela fica sobre a mesa do café da manhã à ceia, até esvaziar). Me impressionou o senso de continuidade. É preciso seguir. No meio de uma oficina de fotografia que propusemos aos alunos da escola elementar, uma das crianças se acidentou. As professoras, rindo do nosso susto e sem titubear, disseram que aqui são fortes e não inspiram cuidados especiais. Na infância, também é preciso seguir. Ao fim do dia, todos os dias, uma nuvem encobre o vilarejo e anuncia a hora do chá e da conversa. O lado de fora se reserva, branco, para o amanhã.

 

:: Batad, Ifugao | para Marcela Katzin

Terminamos hoje uma caminhada de três dias pela selva em busca dos campos de arroz. Construídos há mais de 2.000 anos, os terraços de Batad têm a forma de um anfiteatro verde. Logo ao sair de uma minúscula cidade chamada Barlig, comecei a contar as vezes em que maldisse a vida do guia enquanto me concentrava em não pisar no lugar errado, cair e ficar perdida para sempre. Apesar do cansaço físico, as paradas viravam lembranças bonitas já enquanto aconteciam. Em uma das noites, dormimos na vila familiar de nativos que nos receberam na roda de pinga – feita de arroz, claro -, mostraram a energia elétrica que começava a chegar nas casas vizinhas e contaram coisas sobre os dias na plantação. Já me considero pronta para começar a construção do nosso kibutz, desde que ganhe alguma orientação tua sobre ataques de insetos (fiquei aflita só de ver a Carine lidando com um sanguessuga) e tenha tua companhia pra virar noite charlando entre estrelas.  

 

:: Basco, Batanes | para Laura Del Rey  

Por todas as belezas de viajar, nós já passamos. Quantas vezes falamos sobre um estado de espírito que só atinge os viajantes? Então sei que não preciso escrever sobre como nos mudam os lugares que não conhecemos (para isso sempre teremos Calvino e suas Cidades Invisíveis). Escrevo apenas sobre a ilha de Batanes ser o ponto mais distante das Filipinas – 18 horas de barco à noite (morri de medo e me recusei) ou quase uma hora de avião pequenino (aceitei, relutante). Aqui chove muito. Pouco se faz além de andar de bicicletas enferrujadas, comprar legumes, fazer da ida à pizzaria um evento ou dar bom dia a todos na rua. O que, de tão simples, é vasto. Mar cinzento, céu lilás, pedras cor de rosa, faróis brancos, medo de a água engolir o diminuto dessa geografia. Logo que descobri que Batanes seria assim, pensei que seria a tua ilha nas Filipinas. Quando cheguei, te encontrei aqui e fiquei feliz.

 

:: Coron, Palawan | para Fábio Kawano

Foram dias com vontade de água salgada. Chegando na cidade, porém, nenhuma praia para banho: só colocaria os pés na areia quem comprasse um pacote rumo a ilhas mais afastadas. Agendamos um passeio, inseguras do que viria. No dia seguinte, após alguma navegação, estava quase pensando que se no oceano tanto faz o lado. Aí vieram as primeiras pedras, verticais e contundentes. E a notícia de que muitos navios haviam afundado na região, transformando memórias de antigos bombardeios em moradas de corais. E veio o primeiro mergulho. Em silêncio, sob pressão da água e do encanto, vi as cores mais bonitas até aqui: se a Lisboa do teu Manoel de Oliveira fosse submarina, acho que seria assim. Tentei guardar nos olhos a mistura de rosa pálido, mel, verde musgo e alguns pontinhos muito acesos que pareciam luz. Lembrei da tua novidade de ver o mundo colorido – afora todo resto, esse abandono do preto & branco já vale pelo fundo do mar.   

 

:: El Nido, Palawan | para Paulo Leierer

O caminho de volta começou hoje, em uma balsa que deveria nos levar por oito horas entre uma ilha e outra. Somaram-se duas horas ao trajeto, talvez pelo vento na direção contrária. E é sobre demoras que te escrevo. Na travessia pensei em como, para algumas perguntas, o pensamento demora a vir. Enquanto olhava o tempo passar da proa, balançando as pernas em vaivém e olhando para o azul com vontade de pular para dentro dele, senti que algumas respostas tinham ficado claras. Para os teus questionamento difíceis – sobre a felicidade, os desejos de ano novo ou o que fazer com as cicatrizes -, enfrentar as ondas em um barco fez bem. Cheguei à terra firme com uma queimadura de sol e no mínimo uma resposta na ponta na língua: ~o que você tem escutado? No barco, quem andou comigo foi Skip a Sinking Stone, álbum do Mutual Benefits que também ganhei de ti junto com a companhia para nadar.

 

:: Coron, Palawan | para Marcos Casilli

Na tentativa de escapar da última pousada onde dormimos em Coron (uma cabana de vime sobre palafitas nada seguras), fizemos uma nova tentativa, desta vez na zona portuária. Depois de largar as mochilas, decidimos ir até o mercadinho onde, além de xampus, poderíamos comprar cupnoodles – e, assim, celebrar um pouco às avessas o fim da viagem. Qual não foi nossa surpresa ao ver que, além dos xampus e dos cupnoodles, havia também um karaokê improvisado no balcão? Não tivemos dúvida. Esperamos os homens mais velhos cantarem Sailor, do Rod Stweart (um hit entre os pescadores, por favor não ser severo!), os mais jovens cantarem algo em tagalo e uma senhora cantar como só quem viveu forte consegue. As pessoas dançaram conosco e de tanto rir eu nem me assustei com os ratos e baratas que fugiam dos gatos dali. Tem vezes em que o riso ajuda nas despedidas.

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©carine wallauer

Incompleta é um site feito entre amigos, onde todos dão pitaco no assunto do outro. Volta e meia, a vontade de seguir a conversa é tanta que acaba gerando um novo post. Este aqui inspirou Deve haver, sempre há: testes abertos sobre miniensaio de viagem, por Laura Del Rey.

 

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  • Certa manhã, acordei antes do sol. Estava num vale, no interior de minas gerais. Acordei com a neblina e fiquei durante uma hora e meia observando o começo do dia. O sol entrando na montanha, uma casinha, as vaquinhas, um homem indo buscar água. Esse dia foi transformador na minha vida. Lembrei daquela música “conhecer as manhas e as manhãs…”.

  • eu roubei um pouco por conta dela (https://youtu.be/Epfe7gzkcYk) ter sido originalmente pensada pra outro lugar dessa nossa grande conversa. mas diante da lisboa submarina, das cores do manoel, e dos olhos dessa adorável mochila viajante (dos paus de canela), não tem como não ser esse o perfeito som pra gente ouvir debaixo d’água.

  • o vídeo de canções no karaokê talvez nos fizesse perder leitores, haha, mas foto de farol é bem possível no meu celular. se bem que ainda gosto mais do desenho do KZ, que tem movimento da luz e tudo!

  • Que bom ser um pouco Batanes, pra ter estado nas Filipinas com vocês. Esses oito postais formaram um mapa cheio de detalhes na minha cabeça – e até corri um pouco com a Catita, ouvi as ondas batendo nas pedras (e depois o shhbllw de mergulhar com o snorkel) e, sobretudo, vi todas as cores. Vocês cantando as love songs talvez seja a única parte em que as palavras não possam dar conta do encabulamento charmoso que assisti no celular, pouco antes de vocês chegarem a São Paulo trazendo a felicidade da ida e da volta. Um relato precioso com muita vontade de ‘manda mais’! (há fotos do farol branco de Batanes?)

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