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Alguns minutos antes de encontrar a artista sueca Helena Johansson Lindell percebi que o meu gravador tinha quebrado. Assim, para que pudesse começar a conversa na Galeria Alice Floriano (onde acontece a exposição Synthetic Fruits and Transmuted Circles, em Porto Alegre), confiei em meu telefone – como qualquer jornalista ~moderna faria. Funcionou durante todo tempo em que falamos sobre o trabalho dela como joalheira, seu processo criativo baseado na lúdico (que ela carinhosamente chama de Lust Method) e como o design pode ajudar a quebrar algumas estruturas hierárquicas da sociedade. Alguns dias depois, porém, enquanto decupava a entrevista, o gato Bob pulou no telefone e – não sei dizer como – deletou o arquivo. Sem acesso ao fim da gravação, tive que lembrar o fim da entrevista de cabeça. E me dei conta que seria a forma ideal de escrever sobre Helena (cujos trabalhos foram apresentados em exposições individuais e coletivas na Europa, além de premiados com um Swedish Art Grant): intuitivamente, confiando na vivência e aceitando o fluxo do processo. Conhecer Helena me provou que ela pensa também com as mãos: suas ideias ficam mais próximas do corpo. A ausência de palavras me deu a oportunidade dar mais peso às minhas sensações em relação àquele encontro. Teria sido uma chance de lust? Acredito que sim. Então às palavras de Helena, pelo tempo em que ainda as tinha, e depois pelo efeito que causaram em mim, quando as perdi:    

 

{Quando você começou a fazer o que faz?}

Há cerca de 10 anos, sozinha. Naquela época, criava brincos apenas por prazer. Mas, em algum momento, percebi que precisava de técnicas novas para fazer peças mais avançadas – e assim comecei um treinamento na Leksands folkhögskolae, em uma cidadezinha sueca. Mais tarde concluí um bacharelado em Artes Visuais na Oslo Academy of Arts, na Noruega e estudos avançados na Konstfack University College of Arts, Crafts & Design, de volta à Suécia.

{Como você se conecta aos materiais com que trabalha?}   

O metal tem qualidades muito bonitas e criei uma relação forte com ele. Mas havia uma ausência de cor, e acabava saindo em busca de outros materiais a fim de me expressar. Adicionava contas, pedaços de vidro ou têxteis às peças, e no fim o metal se tornava um mero suporte – o que eu achava injusto. Então quando eu estava a ponto de terminar o curso de arte decidi que meu trabalho final seria baseado no metal. Basicamente martelei por um ano inteiro. Por alguma razão, senti que tinha honrado a técnica e o material. Desde então, passei a me dedicar ao plástico. E trabalho basicamente com ferramentais manuais simples, além de cola. 

Meu trabalho é LOW TECH porque assim entendo melhor as formas e as vontades dos materiais. Um exemplo: um buraco feito com as mãos tem qualidades diferentes de um feito à máquina. Tenho mais presença quando faço meu trabalho artesanalmente. Tem a ver com precisão, mas não apenas. Quando cometo algum erro, ele passa a ser incorporado à peça. Não me interesso por impor minhas ideias ao material, levando-o a uma determinada forma. Quero mesmo criar um diálogo e levar o material a tomar algumas decisões. Tem a ver com respeito. Posso facilmente aplicar essa lógica a relacionamentos interpessoais – como eu gostaria de tratar os outros e ser tratada por eles.

raquel chamis lust helena lindell

{Os materiais de segunda mão são fortes no seu trabalho. Quando você decidiu usá-los?}

A escolha por trabalhar com materiais de segunda mão foi sutil, não consciente. Comecei a coletar objetos de plástico, como brinquedos e coisas para a cozinha, sem saber no que se transformariam. Estava bem incerta quanto ao destino desses materiais, mas os comprava porque me sentia atraída pelas cores e formas. Aos poucos comecei a cortá-los e refiná-los, misturando os pedaços. Não pensava muito e nem tinha segurança de que conseguiria transformar plástico em joalheria ou numa peça de arte.

No meu trabalho, eu tento abarcar materiais, métodos e qualidades que, numa perspectiva social, são considerados de classe baixa, mau gosto, sem status. Ter e ser essas coisas é minha maneira de repelir o preconceito que é resultado de tantas hierarquias.  

{Além das formas e materiais, há artistas que influenciam o seu trabalho?}

Em primeiro lugar, um artista japonês que enche museus e galerias com brinquedos, Hiroshi Fuji. As crianças escalam suas instalações, o que pra mim seria um sonho realizado. Também adoro o trabalho da Lisa Walker, uma joalheira neo-zelandesa que trabalha de maneira bem pouco convencional. Ela é destemida ao juntar materiais, e a atitude dela realmente me inspira. 

Tem também a Jessica Stockholder, artista estadonidense que começou seu trabalho como pintora e hoje faz esculturas e grandes instalações. É como se ela pintasse em três dimensões, com todo tipo de coisas – móveis, por exemplo. Quando vejo o trabalho dela, sinto que entende completamente as cores. Mas o mais importante é que se pode caminhar por sua arte e imergir o corpo nas coisas que ela faz. Fala muito sobre experiência corporal.

Nós formulamos conceitos o tempo todo, ideias sobre o que algo significa. Mas a experiência corporal é muito importante para a compreensão plena do mundo, e foi determinante para minha decisão de trabalhar com joalheria: peças vestíveis que falem direto com o corpo. Mesmo quando penso em criar peças maiores ou instalações, sei que meu trabalho sempre será sobre o corpo.

{Enquanto escuto você falar, sinto que esses artistas foram mencionados também pela forma como eles trabalham – não se trata apenas do impacto visual das peças, mas como elas são feitas. Você levou em conta as ações e os propósitos na hora de escolher suas referências?}

As forma como um trabalho é feito determina muito do que a peça pode expressar. Quando estava preparando o workshop Lust as Method pensei sobre o lust como uma ação. Para mim, lust é uma força interna, um desejo, algo que se tem vontade de fazer com o corpo. Existe a intuição e o fluxo das coisas, mas há, especialmente, uma alegria de experimentar, e isso é muito importante. Em diferentes escolas de arte por onde andei ser alegre durante o processo era considerado um ato pouco artístico.

 

Este foi o momento em que o gato apagou minha nota de voz com uma patada. Justo quando Helena estava terminando de explicar seu método! Então pedi a ela que completasse seus pensamentos a respeito do lust por e-mail. Obrigada, internet <3

Lust as Method é o nome que dei ao meu jeito de trabalhar. Pra mim, significa que o processo artístico não precisa ser uma batalha em prol de resultados significativos, expressivos, importantes. Significa confiar na intuição e deixar de fazer tantos julgamentos. Julgar demais leva ao bloqueio do processo criativo. Ao deixar o julgamento de lado e optar pela continuidade do trabalho, os resultados virão (independentemente da intenção). O julgamento reside nos nossos pensamentos, então focar na experiência corporal leva a expressões mais ricas no trabalho, e de forma mais leve.

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~~As próximas palavras são ainda de Helena, mas cruzadas com as minhas. No fim, é disso que se tratam as conversas, não?~~ 

Depois de conversar sobre o Método Lust, ficamos pensando sobre os ESPAÇOS DE TRABALHO: ~o quão importantes você acha que eles são, Helena? Porque às vezes me pego à procura desses lugares mágicos que são capazes de transformar um monte de ideias fragmentadas em um trabalho sólido e relevante (deve ser o mesmo para escrita, pintura, música, joalheria…). Você acha que existem esses lugares que reúnem nossas inspirações de forma mais fácil? Então Helena me contou sobre seu estúdio em Estocolmo, e como ele era simples. Para ela, o espaço de trabalho é importante, sim, pela energia que se cria nele – pelas pessoas que estão lá agora e pelo que ficou encapsulado nas paredes, em decorrência de outras pessoas. Um exemplo de como isso já afetou seu trabalho: quando trabalhava em uma ourivesaria, suas peças autorais encolheram e ficaram mais detalhadas. Sozinha em um estúdio, tinha mais dificuldade de permanecer no fluxo criativo. Quanto mais julgador um lugar onde estivesse trabalhando, mais difícil era gerar novas ideias.

Hoje ela também percebe o quão recompensador pode ser partilhar um espaço: divide uma casa em Estocolmo com outros oito criadores, de diferentes formas de expressão e dotados de diferentes técnicas. Cada um realiza as próprias atividades, mas quando estão cansados tomam café e riem. Volta e meia participam das mesmas exibições e projetos. E é essa convivência que muitas vezes encerra algumas batalhas mentais causadas pelo processo criativo individual. Dividir dúvidas e ansiedades com os amigos ajuda muito, ela disse. Eu concordei totalmente (oi, amigos da Incompleta <3).

 

Gör om, gör rätt

Helena também falou que apesar da busca pela intuição e pela alegria do processo, é muito rígida com as coisas que faz. Se ela, ou o material que escolheu, não está satisfeita com o resultado, o refaz até estar. Às vezes é difícil saber o que precisa ser modificado ou se tem algo faltando ou sobrando. ~Gör om, gör rätt é algo que se pega dizendo muitas vezes. Significa ~refaça, faça direito. Às vezes Helena também passa horas pensando sobre a palavra perfeita para descrever um trabalho – ou, mais complicado ainda, bolar o título de uma peça ou de uma exposição. Concluímos que as coisas mais importantes às vezes não são traduzíveis em palavras. Cores e formas cumprem muito bem esse papel, e é por isso que ela vê a joalheria como uma forma de empoderamento (dela e de suas causas). Falando de uma perspectiva feminista e queer, ela quer que cada peça seja usada como uma expressão – uma expressão livre de julgamentos. Ao escolher materiais baratos, Helena prova que a joalheria contemporânea é também sobre ideias. Que não quer que coisas ou pessoas sejam consideradas melhores ou mais importantes do que as outras, e a forma como ela combina cores e formas torna isso palpável. Nosso corpo pode falar tanto, o trabalho de Helena também. É por isso que deve ser usado sobre a pele, como as coisas nas quais acreditamos.

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* A exposição pode ser visitada na Galeria Alice Floriano, que fica na rua Félix da Cunha 1143, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Portas abertas das 10h às 19h – e mais informações pelo telefone (51) 3377-5879 ou pela fanpage do espaço.

** Incompleta é um site feito entre amigos, onde todos dão pitaco no assunto do outro. Volta e meia, a vontade de seguir a conversa é tanta que acaba gerando um novo post.

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